11 de nov de 2007

Cidade Romana na China


Embora não haja nenhum registro histórico da chegada de romanos à China, vestígios de sua presença podem ser encontrados na província de Gansú. Ali, ao lado de moedas com efígies de imperadores romanos lá encontradas, podem ser vistos chineses de cabelos castanhos e olhos claros que afirmam ser descendentes de legionários que ali viveram em aproximadamente 50 A.C. Esses romanos teriam vindo da Turquia, a 6.400 km de distância, após uma estranha jornada que começou quando suas legiões foram cercadas e derrotadas por exércitos da Pártia. Cerca de 20.000 romanos foram mortos e 10.000 aprisionados, dos quais metade foi para o Afeganistão e a outra metade, seguindo a famosa rota da seda, foi para a China. Ali os prisioneiros ensinaram táticas militares a guerreiros chineses, tais como as formações de escama de peixe e couraça de tartaruga (gravura), além da utilização de paliçadas duplas para a defesa de fortes. Apesar de libertados, não retornaram à sua pátria; isso explica-se pelo fato de que, caso chegassem à Roma, perderiam a cidadania e seriam escravizados por terem se rendido em batalha e transformado-se em mercenários. Fundaram então a cidade de Li Jien (Roma, na antiga nomenclatura chinesa) da qual hoje só permanecem poucas e mal conservadas ruínas.

Recomendação do dia: O livro "Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon, ed.Companhia de Bolso, um clássico dos clássicos onde o autor, irônico e contundente, apresenta o que considerou o "triunfo da barbárie e da religião" sobre as nobres virtudes romanas.

10 de out de 2007

Entre a Cruz e as Estrelas


A partir de um determinado momento, a contemplação dos céus torna-se aos poucos observação e a reverência diante da obra da criação divina se transforma em dúvida e curiosidade diante dos mecanismos do seu funcionamento. O conhecimento do mundo havia sido apresentado inicialmente como conhecimento de Deus, intermediado pela Revelação, através da Bíblia. A libertação do pensamento ocidental só ocorre quando se ousa qualificar a linguagem bíblica como linguagem simbólica.

(Em 1543 foi publicada uma obra imponente, sob o título de "As Revoluções dos Orbes Celestes". O autor era um destacado astrônomo polonês chamado Nicolau Copérnico, que vivera longo tempo na Itália. As idéias desse livro apresentam a tese do heliocentrismo, na qual afirmava-se que o centro do sistema planetário é o Sol, não a Terra. Copérnico não teve tempo de desfrutar do renome que esta obra lhe proporcionaria, pois faleceu de morte natural no mesmo ano de sua publicação. Em 1616 as teses copernicanas são condenadas pela Igreja e o heliocentrismo proibido, até que em 1835, mais de dois séculos depois, a sentença é suspensa. Como afirmou um cardeal durante esse processo, "...a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu e não como vai o céu...")
Recomendação do dia: O livro "A Filha de Galileu", de Dava Sobel, ed.Companhia das Letras, uma biografia de Galileu Galilei baseada nas cartas - pouco conhecidas - que sua filha mais velha (uma freira enclausurada chamada Maria Celeste em homenagem à paixão do pai pelos mistérios do céu) lhe escreveu por duas décadas.

7 de set de 2007

"Pelô"


O pelourinho simbolizava o núcleo legal: instrumento e símbolo da autoridade, servia para atar os desobedientes e criminosos. Todo pelourinho tinha sempre a plataforma com degraus, a coluna de pedra ou madeira - que era mais ou menos da altura de um homem - e o capitel...Não eram postes de execução, para o suplício da estrangulação havia a forca ou o patíbulo. Possuíam primitivamente sob a coluna uma gaiola onde os réus cumpriam a pena de "exposição"; a gaiola passou mais tarde a figurar em ponto pequeno, como remate simbólico, sem nenhuma utilidade prática. Puniam-se nos pelourinhos os exploradores, os ladrões e os difamadores com castigos de exposição e vergonha pública, além do açoite. Nas colônias coexistiam com o pelourinho, a alfândega e a igreja, que indicavam a superioridade do rei, do cobrador de impostos e do padre, este vigiando as consciências. Montesquieu, tratando da justa proporção entre os delitos e as penas, no livro "O Espírito das Leis", mostra que também na Inglaterra haviam pelourinhos. E narra, a esse propósito, o seguinte caso interessante:

"Carlos II, rei de Inglaterra, viu, ao passar, um homem posto na argola do pelourinho.
- Por que está ele ali? - perguntou.
- Senhor - responderam-lhe - é porque escreveu libelos contra os ministros de Vossa Majestade.
- Grande tolo! - exclamou o rei - Por que não os escreveu contra mim? Nada lhe teria acontecido."

(Na gravura vemos, junto ao primeiro pelourinho de São Vicente, o governador Braz Cubas lendo o foral da vila)
Recomendação do dia: O livro "Estado de Direito Já! - os 30 anos da Carta aos Brasileiros", ed.Lettera.doc, que retrata um dos marcos mais importantes da luta pela democracia no país, reunindo 23 personalidades de nossa história que compartilham, com emoção e riqueza de detalhes, as suas lembranças da época.

2 de set de 2007

Os Fins Justificam os Meios


Por mais de cinco séculos, o nome Maquiavel tem sido associado ao mundo da política e da crueldade...Tendo ao longo da vida ganhado fama de figura corrupta e gananciosa, na verdade Maquiavel foi um intelectual e teórico brilhante que, após a subida dos Médici ao poder, perdeu seu emprego, foi acusado de sedição, preso e torturado. Libertado mais tarde, começou a escrever sua obra-prima, "O Príncipe", baseado em sua vasta experiência política. Dividida em 26 capítulos curtos, a princípio a obra foi recebida quase com indiferença e sua recepção imediata mal pode ser chamada de positiva ou negativa. Editado, lido e debatido ainda hoje, quando vende milhares de cópias em todo o mundo anualmente, o livro é considerado um dos mais importantes já publicados no Ocidente...É também uma das obras mais mal compreendidas que já existiram e aqueles que comprendem mal sua intenção, também compreendem mal o homem que o escreveu.

Recomendação do dia: O livro "Abril Sangrento", de Lauro Martines, ed.Imago, que nos oferece um retrato original da Florença renascentista, onde realizações artísticas deslumbrantes caminhavam de mãos dadas com violência, sadismo e truculência política.

19 de ago de 2007

A Escória do Reino


Degredados portugueses estiveram presentes no Brasil durante mais de três séculos, desde quando Cabral deixou os dois primeiros no litoral da Bahia, até a independência em 1822. Esses homens e mulheres que integraram a população brasileira, faziam parte dos estratos mais humildes da sociedade portuguesa, tendo sido condenados por tribunais civis ou pela Inquisição, por crimes que variavam desde roubo de trigo, até adultério, bigamia e homicídio. Na verdade, alguns grupos sociais como o dos ciganos e o dos cristãos-novos foram sistematicamente perseguidos e sentenciados com o degredo colonial; aqui no Brasil viviam em liberdade, porém eram responsáveis pela própria sobrevivência, ganhando a vida como soldados, agricultores, carpinteiros, padres, curandeiros, parteiras, ladrões, prostitutas etc. Poucos enriqueceram ou alcançaram alguma projeção social e a maioria continuou a viver exatamente da maneira como fazia na metrópole, gerando frequentes queixas das autoridades coloniais; uma parte, porém, retornou a Portugal após o cumprimento da pena ou pelo perdão real. A prática penal do degredo (adotada em todas as colônias portuguesas) promovia a "desinfestação" - termo utilizado em documentos oficiais - do reino, livrando-o de indivíduos indesejados, considerados agentes de desestabilização social.

(Na gravura vemos integrantes da expedição de Cabral na primeira observação astronômica em solo brasileiro. A reconstituição baseia-se em cartas enviadas ao rei D.Manoel)
Recomendação do dia: O DVD "Desmundo", que relata as desventuras de Oribela, uma órfã portuguesa de 13 anos trazida com outras meninas para se casar com colonos e assim garantir a pureza racial dos descendentes de portugueses no Brasil do século XVI.

13 de ago de 2007

Anti-Semitismo


O anti-semitismo não foi uma invenção do Nazismo, embora tenha sido justamente na Alemanha, por volta de 1880, que apareça a palavra "Antisemitismus", encontrando rápida difusão. Os mais importantes dicionários da época definem o termo como movimento de opinião contrária aos judeus e, atualmente, registram anti-semitismo como doutrina ou atitude de hostilidade em relação aos judeus. Porém, a realidade do anti-semitismo precedeu historicamente o aparecimento do vocábulo. Na verdade, embora o aspecto especificamente racista do anti-semitismo tenha só aparecido na primeira metade do século XX e constituído-se em uma de suas últimas formas, a hostilidade contra os judeus, de ordem religiosa, é muito mais antiga. Resta, então, definir o objeto desse anti-semitismo, o judeu. "Judeu" é uma pessoa ligada a um povo ou a uma religião, porém nos dicionários sempre reaparece o preconceito - judeu é associado frequentemente à mesquinhez e avareza. Isso explica porque no século passado muitos franceses tenham preferido ser tratados de israelitas, o que tinha um ar mais conveniente e "assimilado", a serem chamados de judeus.

Recomendação do dia: o livro "O que deu errado no Oriente Médio?", de Bernard Lewis, Jorge Zahar Editor, onde esse especialista em estudos sobre o Oriente Médio procura decifrar e explicar a tensa relação entre o Islã e o Ocidente.

5 de ago de 2007

Em Defesa dos Mortos


Salvador, 25 de outubro de 1836: uma multidão pluriclassista e multiracial destrói o cemitério do Campo Santo. Inaugurado três dias antes, ele havia sido construído por uma empresa que obtivera do governo o monopólio dos enterros da cidade. Até aquela data, as pessoas eram sepultadas nas igrejas, costume considerado essencial para a salvação das almas. A revolta contra o cemitério, denominada "Cemiterada", foi feita por centenas de manifestantes em defesa de uma vida melhor no outro mundo. Na luta, confrades de diversas agremiações religiosas brandiam estandartes e ostentavam hábitos coloridos, representando uma cultura funerária afeita ao espetáculo e refratária à medicalização da morte. Vinte anos depois do levante, a epidemia de cólera, trazendo em seu rastro a experiência cotidiana dos corpos putrefatos, provocava alterações que as leis e autoridades, impondo o cemitério, não tinham sido capazes de desencadear. A morte deixava de ser uma festa para se tornar uma ameaça terrível.

(Na aquarela, Jean-Baptiste Debret retrata um cortejo fúnebre no Brasil do início do século XIX)
Recomendação do dia: o livro "Vida no Brasil", de Thomas Ewbank, ed.usp, um fascinante registro da cidade do Rio de janeiro em 1845/46 na visão desse viajante norte-americano, cujo testemunho nos fornece um painel do passado, analisando costumes e hábitos do povo carioca no século XIX.

27 de jul de 2007

Boemia Intelectual


Cafés e bares desempenharam papel de destaque na vida intelectual italiana, francesa e britânica a partir do século XVII, pois eram locais onde conversações livres e criativas propiciavam aprendizagens não reguladas, sendo importantes na promoção de um saber inovador. Os donos desses estabelecimentos frequentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão de notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de “opinião pública” ou “esfera pública". Essas instituições facilitavam encontros entre idéias e indivíduos. Palestras sobre Matemática eram oferecidas no "Dougla’s" e no "Marine Coffe-House" em Londres, enquanto o "Child’s" era frequentado por livreiros e escritores... Já em Paris destacava-se o "Procope", fundado em 1689 e que servia como ponto de encontro para Diderot e seus amigos às vésperas da Revolução Francesa.

(Na gravura vemos o famoso "Café de Paris", criado em 1822 e considerado, até seu desaparecimento em 1856, como o “Templo da Elegância”. Por ele passaram algumas das mais notáveis figuras da época (entre elas Alexandre Dumas) que degustavam uma das melhores cozinhas que Paris já havia conhecido. Não era contudo um reduto para os amantes da noite pois, em qualquer estação, fechava suas portas às 22:00 hs)
Recomendação do dia: o livro "O Povo de Paris", de Daniel Roche, ed.usp, obra que ilumina a vida cotidiana de um dos maiores personagens da História: o povo de Paris. Clássico da História Social, revela as maneiras de viver, as condições materiais e até as possibilidades de lazer da massa parisiense durante o agitado século XVIII.

22 de jul de 2007

O Fim da Infância


Na sociedade pré-industrial a criança e o adolescente eram encarados de uma forma diferente da dos dias atuais. A duração da infância era reduzida; a criança logo que adquirisse algum desembaraço físico era misturada aos adultos e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena transformava-se imediatamente em homem ou mulher jovem, sem passar pelas etapas da juventude, o que é um aspecto essencial das sociedades evoluídas de hoje. A passagem da criança pela família era, portanto, muito breve e insignificante para que se tivesse tempo ou razão de forçar a memória ou a sensibilidade, como é demonstrado pela raridade das alusões às crianças e às suas mortes nos diários de famílias medievais. A partir do fim do século XVIII tudo muda; a escola substitui a aprendizagem como meio de educação e a criança deixa de aprender a vida diretamente, através do contato com adultos, sendo mantida em uma espécie de quarentena antes de ser solta no mundo. Começou então um longo processo de enclausuramento que se estenderia até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização...

(Em "A Família de Tito", quadro pintado em 1668 pelo holandês Rembrandt, podemos observar crianças vestidas como adultos)
Recomendação do dia: O livro "O Mito da Idade Média", de Regine Pernoud, ed.Europa-América, onde a historiadora francesa desafia a opinião generalizada de que o período medieval teria sido uma época de trevas, encaixada entre os séculos gloriosos da Antiguidade e do Renascimento.

13 de jul de 2007

Tribos Pagãs


Cinco milênios atrás, antes mesmo que os egípcios construíssem suas pirâmides, um povo misterioso criava monumentos no mundo antigo. Eram as tribos pagãs da velha Inglaterra que, durante trinta séculos até a chegada dos romanos, foram os responsáveis pelo erguimento de impressionantes santuários e tumbas coletivas. Apesar de atrasados tecnologicamente, descobriram meios de transportar enormes blocos de pedra por centenas de quilômetros e ainda inventaram uma técnica para registrar a passagem das estações do ano. As tribos pagãs viviam sem a escrita, portanto poucas pistas temos de como conseguiam erguer tantas estruturas, porém 50 séculos não apagaram as provas evidentes e até hoje visíveis do que realizaram...

(Na foto, Stonehenge, o mais famoso monumento pagão do mundo. Localizado no sul da Inglaterra, seu propósito vem intrigando gerações de pesquisadores, porém como parece claro que a tentativa de comunicação com os mortos era parte essencial da vida pagã, é quase certo que o conjunto de monólitos que formam Stonehenge tinha um importante papel em rituais fúnebres, sendo encarado como um portal para o mundo dos espíritos)
Recomendação do dia: O livro "A História do Alfabeto", de John Man, Ediouro - A idéia por trás do alfabeto (que a linguagem com toda sua riqueza de sentidos pode ser registrada por uns poucos símbolos gráficos) é extraordinária. Do surgimento do alfabeto ocidental até sua presente evolução, o livro nos mostra a contribuição vital de 26 letras para o nosso senso de identidade.

8 de jul de 2007

Pela Glória do Império


"O inglês nasce com um certo poder milagroso que o torna senhor do mundo. Quando deseja alguma coisa, ele nunca diz a si próprio que a deseja. Espera pacientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável convicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa que ele deseja possuir..." Assim referia-se o dramaturgo inglês Bernard Shaw sobre os métodos de conquista empregados pelos ingleses durante o Neocolonialismo. A partir da metade do século XIX, na ânsia pela descoberta de novas fontes de matérias primas e de novos mercados consumidores, os europeus partem para a conquista de áreas desconhecidas. Desta forma, as marginalizadas África e Ásia foram os alvos preferenciais do Imperialismo e de disputas territoriais, prenúncios de tormentos somente compreendidos diante dos horrores da Primeira Guerra Mundial.

Recomendação do dia: o livro "O Fantasma do Rei Leopoldo", de Adam Hoschild, Ed.Companhia das Letras, que nos mostra a pilhagem genocida exercida pelo rei da Bélgica Leopoldo II ao longo do vasto e inexplorado território que circundava o rio Congo, relatando detalhes macabros, tais como casas e jardins de orgulhosos oficiais belgas decorados com crânios humanos. Tais crimes geraram o primeiro grande movimento por direitos humanos do século XX.

30 de jun de 2007

Médicos e Curandeiros


Médicos, no Brasil do século XIX, eram artigos raros e caros. Mais do que isso, eram motivo de chacota em desfiles de carnaval e piadas de jornais; suas prescrições causavam verdadeiro pânico entre os mais variados pacientes: homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos. Para lutar contra as dificuldades que enfrentavam, travaram verdadeira guerra contra autoridades das províncias e da corte e, principalmente, contra a imensa variedade de concorrentes nos exercícios das artes de curar, como curandeiros, médiuns, barbeiros, boticários, benzedeiros, homeopatas, parteiras e até supostos "doutores" estrangeiros...

(A caricatura acima retrata cenas da "Revolta da Vacina", ocorrida durante o governo Rodrigues Alves a partir da aprovação no dia 31 de outubro de 1903 da lei da vacinação obrigatória. Preparado pelo médico Oswaldo Cruz - que tinha pouquíssima sensibilidade política - o projeto de regulamentação sai cheio de medidas autoritárias. O texto vaza para um jornal e no dia seguinte à sua publicação, começam as agitações no centro da cidade. Financiados pelos monarquistas — que apostavam na desordem como um meio de voltar à cena política — jacobinos e florianistas usam os jornais para passar à população suas idéias conspiradoras, por artigos e charges; no dia 16 de novembro, o governo revoga a obrigatoriedade da vacina, mas continuam os conflitos isolados, nos bairros da Gamboa e da Saúde. Dia 20, a rebelião está esmagada e a tentativa de golpe, frustrada. Começa na cidade a operação “limpeza”, com cerca de 1000 detidos e 460 deportados).
Recomendação do dia: o livro "Cidade Febril - Cortiços e Epidemias na Corte Imperial", de Sidney Chalhoub, Ed.Companhia das Letras - Escrito de forma apaixonante e bem-humorada, o livro reinterpreta conflitos de poder no Rio de Janeiro do século XIX à luz da história social.

25 de jun de 2007

Sexo, Desvio e Danação


Durante séculos, os historiadores têm estudado a guerra e o dinheiro, as leis e a religião, porém só recentemente eles se voltaram para o estudo em profundidade do instinto primitivo da humanidade: a ânsia de se reproduzir e desse modo perpetuar a espécie através do sexo. O tabu intelectual atesta desse modo o poderoso legado do pensamento e dos ensinamentos cristãos na civilização ocidental. No século XIX, passagens que lidassem com questões sexuais em textos antigos eram deixadas na"obscuridade decente de uma linguagem clássica". A cristandade foi, desde seus primórdios, uma religião negativa quanto ao sexo e os pensadores cristãos o encaravam na melhor das hipóteses como um mal necessário, lamentavelmente indispensável para a reprodução humana, mas que perturbava a verdadeira vocação de uma pessoa: a busca da perfeição espiritual.

(Na gravura, uma casa de banhos para prostitutas no século XVI. Parte integrante da vida urbana desde a Idade Média, as prostitutas eram segregadas pela Igreja e pelo Estado, que adotava uma postura semelhante à utilizada em relação a leprosos, ou seja, elas seriam diferenciadas do restante da população pela prescrição de uma marca de infâmia, geralmente com códigos de vestimenta distintivos e atuando em zonas da "luz vermelha").
Recomendação do dia: o livro "A Invenção da Pornografia", org.Lynn Hunt, Ed.Hedra - Obra que relaciona o surgimento da obcenidade com os momentos de formação da modernidade e democratização da cultura do Ocidente...Sim, a pornografia tem sua história e, entre heréticos, livre-pensadores e libertinos, autores como Sade colocaram à prova o "decente", questionando os relacionamentos sexuais e sobretudo sociais.

23 de jun de 2007

Exercícios Espirituais


A experiência de catequese das missões jesuíticas, com a visão inicial de inocência dos indígenas e do correspondente otimismo quanto à facilidade de lhes inculcar o credo, chegou até a convicção de que, diante da resistência do nativo em abandonar seus "vícios"(poligamia, nudez, canibalismo etc), a via mais eficiente para legitimar a autoridade dos colonizadores seria o consentimento gerado pelo medo. Como explicou sutilmente São Tomás de Aquino (lição bem compreendida e aplicada por Nóbrega e Anchieta no Brasil), o medo não se confunde com coerção, pois esta comprometeria a conversão, que não pode ser forçada, já que depende de graça divina. Chegou-se assim à conclusão de que para tornar os índios mais propensos a adotar a fé cristã cumpria pô-los diante de um dilema:subordinar-se "voluntariamente" à ordem colonial agrupando-os em aldeias tuteladas pelos padres, ou encarar a perspectiva de serem caçados e escravizados pelos colonos. Nos dois casos teriam de renunciar à própria identidade cultural.

(Na foto, ruínas na região de Sete Povos das Missões, uma das principais comunidades jesuíticas do sul do país e que foi destruída em meados do século XVIII pelas forças espanholas e portuguesas)
Recomendação do dia: O DVD "A Missão", que relata o conflito de interesses entre os colonizadores em busca do enriquecimento em contraponto com o papel dos jesuítas que queriam as reduções longe dos centros povoados, onde eles mesmos teriam o controle espiritual e temporal.

17 de jun de 2007

Quando o mundo encolheu


Foi há mais de 600 anos, no século XIV, que uma doença varreu o mundo numa apavorante pandemia conhecida como "Peste Negra". Todas as nossas imagens da peste são coloridas pelas recordações de medo e morte deixadas pelos sobreviventes europeus daquele horror global. Uma doença que nunca tinham visto antes apareceu do nada; quase metade da população da Europa foi infectada e cerca de um terço morreu de forma rápida e horrível. Somente 500 anos depois é que a descoberta dos germes permitiria explicar tamanho horror. Sabe-se que a peste (transmitida por pulgas) pode infectar duas centenas de animais diferentes e que, antes de atingir os seres humanos, ela vivia entre os ratos e viajava pela superfície do planeta. Tivemos notícia da peste somente quando os destinos de homens e roedores se cruzaram...

(A gravura mostra a remoção de corpos de pessoas atingidas pela peste na cidade italiana de Florença, por volta de 1340)
Recomendação do dia: O livro "Gripe", de Gina Kolata, Ed.Record - Nessa obra a jornalista norte-americana desvela o mistério dessa outra doença letal ao acompanhar o trabalho de cientistas que descobrem fragmentos do vírus em corpos congelados de pessoas contaminadas em 1917 no Alaska. A autora esmiuça a história da gripe, relata a corrida para resgatar traços do vírus em boas condições para pesquisas e sonda o medo que impeliu as políticas governamentais nos EUA e na Europa.

16 de jun de 2007

Hanna e a História


Existem autores que periodicamente voltam a ficar na moda; um deles é a filósofa alemã Hanna Arendt. Bela e inteligente, tudo tinha para agradar(aliás agradou a Heidegger, de quem foi nos anos 20 estudante e amante). Depois, a partir de 1933, a tempestade desabou sobre a Europa; enquanto seu guia tornava-se um reitor simpático ao Nazismo na Universidade de Freibourg, a jovem pensadora judia, que apenas tinha tido tempo de publicar sua tese sobre "Conceito de Amor em Santo Agostinho", buscava o rumo do exílio, passando pela França(onde participa no trabalho de uma organização que facilitava a emigração de judeus para a Palestina), pela Espanha e finalmente instalando-se nos EUA em 1941. Terminada a guerra, a escritora decide passar o resto de sua vida na América, onde publica diversos trabalhos nos quais transmite a idéia de que a História pode ser trágica e que dela retiram-se lições.

(Na foto, três fases distintas da vida de Arendt, nos anos 20, 40 e 60)
Recomendação do dia: O livro "Nos Passos de Hanna Arendt", de Laure Adler, Ed.Record - Essa biografia tenta enfim compreender a mulher generosa, politicamente incorreta, de uma coragem excepcional, que praticava o culto da amizade como um eros e a filosofia como uma arte do "savoir-vivre".

17 de abr de 2007

Guerra Civil no Brasil


Milhares de soldados e voluntários civis participaram da rebelião formada no estado de São Paulo contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas, lutando em busca de liberdade, democracia e uma nova constituição para o país. O poder político de São Paulo diminuiu após a Revolução de 1930 e o descontentamento motivou a população para o Movimento Constitucionalista com o propósito de restaurar a influência dos paulistas, que tiveram o estado entregue a um interventor “tenentista” de idéias totalitárias. A conspiração, organizada por representantes de partidos políticos, oficiais do exército e comandantes da Força Pública, não foi restrita somente a São Paulo, repercutindo também com protestos e manifestações em outros estados. No total, foram 87 dias de combates, (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 - sendo o último dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos. Após o movimento, São Paulo voltou a ser governado por paulistas, e, dois anos depois, uma nova constituição foi promulgada.

Recomendação do dia: O livro "Elite Intelectual e Debate Político nos Anos 30", 143 livros de época levantados e resenhados pela equipe do Projeto Brasiliana do Cpdoc, com introdução de Lúcia Lippi Oliveira e prefácio de Barbosa Lima Sobrinho.