Sexta-feira, Junho 12, 2009

Vestígios de Poder


A cidade inca de Machu Picchu, nos Andes, localizava-se a uma altitude de cerca de 2500m e apesar de oculta e livre dos espanhóis (nada é mencionado em suas crônicas), foi abandonada ainda no sec. XVI por razões e em circunstâncias ignoradas. Acreditava-se que as ruínas incas haviam sido “descobertas” por Hiram Bingham, da Universidade Yale em 1911, entretanto, em 1989, o cartógrafo americano Paolo Greer encontrou um mapa alemão datado de 1874 que já as indicava. Indo atrás da história desse enigmático mapa, Greer e sua equipe conseguiram comprovar que o verdadeiro descobridor de Machu Picchu foi o alemão Augusto R. Berns, minerador e proprietário de terras na região das ruínas por volta de 1867. Atualmente Machu Picchu pode ser destruída a qualquer momento por deslizamentos de terra. De acordo com geólogos japoneses que tem monitorado o local, o declive na parte posterior do sítio arqueológico está recuando cerca de 1 cm por mês, podendo haver uma movimentação de terra de até 100 m de profundidade, danificando irreparavelmente as antigas estruturas.

(A foto mostra as famosas ruínas, nas quais foram encontrados milhares de esqueletos, sendo que 80% eram de mulheres)

Recomendação do dia: O DVD do filme "Queimada", dirigido por Gillo Pontecorvo que, com visual e narrativas impressionantes, além de grande atuação de Marlon Brando, explora temas como colonialismo e insurreição.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Uma Boa Transação


Aprendemos que os holandeses foram expulsos do Brasil em 1654, numa guerra valente movida contra eles por índios, negros e portugueses. Só faltou explicar como essa gente armada de espingarda, espada e arco e flecha foi capaz de vencer a principal potência econômica e militar do século XVII. Na verdade, Portugal comprou o Nordeste dos holandeses, pagando o equivalente a 63 toneladas de ouro, após um acordo que foi costurado durante negociações que tiveram início em 1641. A primeira fronteira do Brasil não foi o Rio da Prata ou a Amazônia, mas sim o Nordeste; foi aí que nossa integridade territorial correu maior perigo. Por lamentável que tivesse sido, a perda do Rio Grande do Sul não teria comprometido a unidade nacional - como não o fêz a independência do Uruguai - mas a consolidação do Brasil holandês teria estilhaçado a América portuguesa. Aliás, sem a restauração portuguesa de 1640, não teria havido a restauração pernambucana de 1654, pois a Espanha certamente teria cedido de fato o Nordeste à Holanda. A negociata foi finalizada com o Nordeste sendo pago 2/3 em sal de Setúbal e 1/3 em duas praças-fortes do Malabar outrora conquistadas por Vasco da Gama nas Índias, o que bem simboliza a opção brasileira feita pelo governo português da restauração.

(Na gravura, a casa do governador holandês Maurício de Nassau em Haia, hoje museu de pinturas da coleção particular da familia real holandesa)

Recomendação do dia: O livro "História de Antonio Vieira", ed.alameda, de João Lúcio de Azevedo, uma monumental biografia daquele que ficou conhecido como apóstolo dos índios, pregador extraordinário, político ardiloso, amigo dos cristãos-novos, defensor da escravidão dos africanos, intérprete dos profetas e, segundo o poeta Fernando Pessoa, imperador da língua portuguesa.

Sábado, Dezembro 20, 2008

O Grande Khan


Um líder com características ambientalistas e homofóbico. Assim um grupo de cientistas chineses descreve o lendário Gêngis Khan a partir da recuperação daquela que muitos consideram a mais antiga Constituição do planeta: o Código de Gêngis Khan, criado no século 13 pelo conquistador e seus conselheiros. Havia pena de morte tanto para aqueles que "...causarem estragos à pradaria mongol com escavações não autorizadas ou atearem fogo à vegetação" quanto para os que "...cometerem sodomia". O surto homofóbico da lei teria uma explicação estratégica: Gêngis Khan queria estimular a expansão da população mongol, que naquela época somava 1,5 milhão de pessoas, contra os 100 milhões de habitantes da vizinha China. Morreu com cerca de setenta anos, tendo sido sepultado em local até hoje desconhecido; todos os homens ou animais que cruzaram com a imensa caravana que levava os despojos mortais foram imediatamente mortos - não havia vingança nessas matanças, os animais eram eliminados para serem oferecidos em sacrifício enquanto os homens deveriam ser silenciados para garantir o segredo de Estado, pois ninguém deveria saber que o grande guerreiro estava morto até que se finalizassem todas as campanhas militares em andamento.

Recomendação do dia: O DVD do filme "O Ovo da Serpente", de Ingmar Bergman - Na Berlim arrasada pela Primeira Guerra Mundial, um desempregado judeu consegue refúgio no apartamento de um homem que também lhe oferece emprego em uma clínica onde realizam-se experiências pseudo-científicas - Muitas vezes a expressão "ovo da serpente" foi utilizada como metáfora para exprimir a constatação de um mal em processo de elaboração, de incubação. No desenvolvimento do ovo, pode-se acompanhar a lenta e inexorável evolução do monstro(o Nazismo, no caso do filme)que irá nascer.

Sábado, Dezembro 06, 2008

Camisas-Verdes


A tese de que os movimentos fascistas fora da Itália e Alemanha foram imitações apagadas e mal sucedidas parece sustentar-se apoiada em alguns exemplos na América Latina. O PNC(Partido Nazista do Chile) nunca teve grande importância; na Argentina, surpreendentemente, a despeito ou talvez devido à força das ideologias da ala direita, nenhum grande partido fascista vingou na década de 30. Não foi o que ocorreu no Brasil; em 1932 nasce a AIB(Ação Integralista Brasileira) denunciando, segundo o líder do movimento Plínio Salgado, "...a confusão reinante após a Revolução de 30" e exigindo um Estado intervencionista e com amplos poderes. Salgado conhecia Mussolini pessoalmente e certamente foi influenciado por este; tal qual o Fascismo europeu, a ideologia integralista elencou como adversários a combater, o Liberalismo, o Socialismo, o Capitalismo internacional e os judeus, não excluindo a utilização de meios violentos nessa luta. Chegando a reunir mais de 1.000.000 de militantes em 1937 (chamados de "camisas-verdes" devido ao uniforme), a AIB esfacela-se no ano seguinte, após uma fracassada tentativa de chegar ao poder através de um ataque ao Palácio da Guanabara e com Plínio Salgado sendo forçado a rumar para o exílio em Portugal.

(Na gravura, capa da revista "Anauê", saudação de provável origem tupi, significando "meu irmão" e que era utilizada pelos militantes integralistas)
Recomendação do dia: O livro "A Anatomia do Fascismo", de Robert O.Paxton - Ed.Paz e Terra - onde o aclamado historiador norte-americano demonstra que para compreender o Fascismo, temos que examiná-lo em ação, levando em conta o que ele fez e não apenas o que dizia ser.

Domingo, Setembro 14, 2008

A "Invencível"


A Invencível Armada (no espanhol antigo: Grande y Felicíssima Armada), chamada de "The Invincible Fleet" com certo tom irônico pelos ingleses no século XVI, foi uma esquadra reunida pelo rei Filipe II da Espanha em 1588 na tentativa de pôr fim à sua guerra com a Inglaterra. Saindo de Lisboa a 28 de Maio de 1588, com 130 barcos, 8 mil marinheiros e 18 mil soldados (grande parte dos estrangeiros da Invencível Armada eram pilotos, marinheiros e soldados portugueses; inclusive um dos principais esquadrões de batalha era denominado "Esquadra Portugal"), a Armada tinha como plano destruir a frota inglesa que defendia o Canal da Mancha e posteriormente escoltar o exército do Duque de Parma de 30 mil soldados, que aguardava nos Países Baixos Espanhóis. Só após 15 dias os espanhóis conseguiram avistar a costa inimiga; durante este tempo, a calmaria no litoral português e uma tempestade junto ao cabo Finisterra, separou a Armada. Após uma reunião do alto comando em Vigo, decidiu-se rumar para a Inglaterra, avistando-se a frota britânica em 19 de Julho. Às duas da manhã da segunda-feira seguinte, preparava o Conselho de Guerra inglês seis urcas velhas — os "navios-fogo" — que foram abarrotadas de combustível, enviadas para o centro da esquadra espanhola e em seguida incendiadas, fugindo os pilotos em seus batéis. A esquadra espanhola perdia assim a coesão e via-se reduzida a menos da metade de seus navios, que somente conseguiriam escapar contornando as costas da Escócia e Irlanda, em uma atribulada viagem que ainda sofreu com as tempestades de setembro, típicas na região.

Recomendação do dia: O livro "Filipe da Espanha", de Henry Kamen, ed.Record, uma biografia erudita, imparcial e justa do mais controvertdo rei espanhol.

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

O Último Baile


O ocaso do Império brasileiro não poderia estar melhor simbolizado do que pelo derradeiro baile da Ilha Fiscal(foto), realizado em 9 de novembro de 1889, apenas seis dias antes da proclamação da República. Reunindo entre quatro e cinco mil pessoas, a festa tinha como motivação homenagear oficiais da marinha chilena que haviam aportado pouco antes no Rio de Janeiro. Com tal gesto, o Estado imperial pretendia mostrar aos históricos rivais argentinos que uma nova composição de forças surgia no continente, barrando possíveis ambições expansionistas de seus vizinho dos pampas. No palácio de estilo gótico(hoje parte integrante do complexo Cultural da Marinha), foi servido aos convidados um requintado buffet de carnes e peixes variados, regados a excelentes vinhos e champagnes. Enquanto isso, no cais, o povo era distraído por uma banda da polícia com lundus e fandangos, danças que contrastavam com o refinamento das valsas e polcas que embalavam políticos e oficiais... O comportamento dos participantes foi largamente explorado (a imprensa da época noticiou que peças íntimas foram encontradas na ilha depois da festa), no evento que marcou a melancólica despedida da monarquia.

Recomendação do dia: O livro "A Formação das Almas - O Imaginário da República do Brasil", de José Murilo Carvalho, ed.Companhia das Letras, onde o autor - com os olhos no final do século XIX - nos oferece um curioso passeio pelo momento de implantação do regime republicano através de imagens. Entre texto e ilustrações, aprendemos como mitos criados para a República - seus heróis, a bandeira verde-amarela e o nosso hino - traduzem com fidelidade as batalhas travadas pela construção de um rosto para a República brasileira.

Domingo, Julho 27, 2008

Intelectuais


Teria sido o surgimento dos intelectuais um fenômeno ocorrido apenas no final do século XVII, como afirma Paul Johnson, quando pensadores seculares substituíram padres, escribas e adivinhos, os quais em épocas de maior religiosidade haviam conduzido a sociedade ou, segundo opinião de Jacques Le Goff, seria o intelectual fruto da revolução urbana situada nos séculos XII e XIII que permitirá a emergência das universidades, verdadeiras catedrais do saber, nas quais grandes debates forjam os músculos dos trabalhadores da idéias? Independente do momento em que aparecem, os intelectuais não serão encarados nem como servos nem como intérpretes dos deuses e sim como seus substitutos, capazes de diagnosticar as doenças da sociedade e de curá-las com seu intelecto auto-suficiente...

Recomendação do dia: O livro "Descartes - Uma biografia intelectual", de Stephen Graukoger, ed.Contraponto, que trata da vida e obra de René Descartes, cuja filosofia encontrou oposição na Igreja e nas universidades até o século XVIII. Excluído da Academia das Ciências, o cartesianismo cedo se transformou em filosofia social específica, que aplicou o método da dúvida e o princípio das idéias claras e distintas ao pensamento vigente, desmascarando a falsidade de preconceitos e a presunção de verdades definitivas.

O Pai da Imprensa


Em 1450, todos os livros europeus eram copiados a mão e não somavam mais do que algumas centenas. Em 1500, eles já eram impressos e podiam ser contados aos milhares. A história de Johannes Gutenberg é um paradoxo: sua ambição era reunir todo o mundo cristão, mas sua invenção foi utilizada para separá-lo; ele desejou fazer fortuna, mas lhe foi cruelmente negado o direito de aproveitar os frutos do seu trabalho e uma vez que o segredo de sua descoberta foi revelado, o mundo nunca mais foi o mesmo... A invenção dos tipos móveis tornou possível o desenvolvimento da ciência moderna e da literatura, além de promover profundas mudanças políticas que levaram ao surgimento das nações.

Recomendação do dia: O livro "A Conturbada História das Bibliotecas", de Matthew Battles, ed.Planeta, onde cada página mostra como o armazenamento de enormes quantidades de livros em um só local vem despertando a atenção de inimigos da civilização, desde a destruição da coleção de Alexandria até as guerras mais recentes. Após este livro, fica difícil caminhar entre estantes sem pensar na vida intensa que é ocultada por sua aparência de paz e ordem.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Poliandria no Quilombo de Palmares


Palmares reproduzia, dentro de suas fronteiras, a desproporção de sexos existente entre a população escrava. Esse desequilíbrio ocorria porque os senhores de escravos preferiam comprar homens jovens a mulheres e os traficantes procuravam suprir essa demanda. Calcula-se que, para cada mulher, havia três ou mais homens (variando com a área), fato que se irá refletir na composição por sexos da população palmarina. Se no quilombo fosse mantido o casamento monogâmico que os senhores de engenho impunham em suas fazendas, haveria um desequilíbrio familiar tão agudo que a desarticulação social seria inevitável. Instituiu-se assim a poliandria (na qual uma mulher tem vários parceiros sexuais concomitantes e com eles tem vários filhos), como assim descreveu um negro infiltrado em Palmares a mando de um grande proprietário de terras "...a cada escravo fugido que chega em Palmares é dado pelo conselho de justiça uma mulher, à qual possui junto com outros negros - dois, três, quatro ou cinco - pois sendo poucas as mulheres, lá adotam esse estilo para evitar contendas..." Entretanto, ao contrário do que acontecia com a maior parte da comunidade, os membros da estrutura de poder (como o rei e possivelmente os chefes de mocambos) praticavam a poligamia - Ganga Zumba tinha três mulheres, duas negras e uma mulata, enquanto Zumbi teve também algumas, havendo a hipótese de que uma delas era branca.

Recomendação do dia: O livro "Rebelião Escrava no Brasil", de João José dos Reis, ed.Companhia das Letras, um estudo cuidadoso do levante urbano ocorrido em 1835 na cidade de Salvador e que foi liderado por nagôs muçulmanos nascidos na África.

Domingo, Novembro 11, 2007

Cidade Romana na China


Embora não haja nenhum registro histórico da chegada de romanos à China, vestígios de sua presença podem ser encontrados na província de Gansú. Ali, ao lado de moedas com efígies de imperadores romanos lá encontradas, podem ser vistos chineses de cabelos castanhos e olhos claros que afirmam ser descendentes de legionários que ali viveram em aproximadamente 50 A.C. Esses romanos teriam vindo da Turquia, a 6.400 km de distância, após uma estranha jornada que começou quando suas legiões foram cercadas e derrotadas por exércitos da Pártia. Cerca de 20.000 romanos foram mortos e 10.000 aprisionados, dos quais metade foi para o Afeganistão e a outra metade, seguindo a famosa rota da seda, foi para a China. Ali os prisioneiros ensinaram táticas militares a guerreiros chineses, tais como as formações de escama de peixe e couraça de tartaruga (gravura), além da utilização de paliçadas duplas para a defesa de fortes. Apesar de libertados, não retornaram à sua pátria; isso explica-se pelo fato de que, caso chegassem à Roma, perderiam a cidadania e seriam escravizados por terem se rendido em batalha e transformado-se em mercenários. Fundaram então a cidade de Li Jien (Roma, na antiga nomenclatura chinesa) da qual hoje só permanecem poucas e mal conservadas ruínas.

Recomendação do dia: O livro "Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon, ed.Companhia de Bolso, um clássico dos clássicos onde o autor, irônico e contundente, apresenta o que considerou o "triunfo da barbárie e da religião" sobre as nobres virtudes romanas.

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Entre a Cruz e as Estrelas


A partir de um determinado momento, a contemplação dos céus torna-se aos poucos observação e a reverência diante da obra da criação divina se transforma em dúvida e curiosidade diante dos mecanismos do seu funcionamento. O conhecimento do mundo havia sido apresentado inicialmente como conhecimento de Deus, intermediado pela Revelação, através da Bíblia. A libertação do pensamento ocidental só ocorre quando se ousa qualificar a linguagem bíblica como linguagem simbólica.

(Em 1543 foi publicada uma obra imponente, sob o título de "As Revoluções dos Orbes Celestes". O autor era um destacado astrônomo polonês chamado Nicolau Copérnico, que vivera longo tempo na Itália. As idéias desse livro apresentam a tese do heliocentrismo, na qual afirmava-se que o centro do sistema planetário é o Sol, não a Terra. Copérnico não teve tempo de desfrutar do renome que esta obra lhe proporcionaria, pois faleceu de morte natural no mesmo ano de sua publicação. Em 1616 as teses copernicanas são condenadas pela Igreja e o heliocentrismo proibido, até que em 1835, mais de dois séculos depois, a sentença é suspensa. Como afirmou um cardeal durante esse processo, "...a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu e não como vai o céu...")

Recomendação do dia: O livro "A Filha de Galileu", de Dava Sobel, ed.Companhia das Letras, uma biografia de Galileu Galilei baseada nas cartas - pouco conhecidas - que sua filha mais velha (uma freira enclausurada chamada Maria Celeste em homenagem à paixão do pai pelos mistérios do céu) lhe escreveu por duas décadas.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

"Pelô"


O pelourinho simbolizava o núcleo legal: instrumento e símbolo da autoridade, servia para atar os desobedientes e criminosos. Todo pelourinho tinha sempre a plataforma com degraus, a coluna de pedra ou madeira - que era mais ou menos da altura de um homem - e o capitel...Não eram postes de execução, para o suplício da estrangulação havia a forca ou o patíbulo. Possuíam primitivamente sob a coluna uma gaiola onde os réus cumpriam a pena de "exposição"; a gaiola passou mais tarde a figurar em ponto pequeno, como remate simbólico, sem nenhuma utilidade prática. Puniam-se nos pelourinhos os exploradores, os ladrões e os difamadores com castigos de exposição e vergonha pública, além do açoite. Nas colônias coexistiam com o pelourinho, a alfândega e a igreja, que indicavam a superioridade do rei, do cobrador de impostos e do padre, este vigiando as consciências. Montesquieu, tratando da justa proporção entre os delitos e as penas, no livro "O Espírito das Leis", mostra que também na Inglaterra haviam pelourinhos. E narra, a esse propósito, o seguinte caso interessante:

"Carlos II, rei de Inglaterra, viu, ao passar, um homem posto na argola do pelourinho.
- Por que está ele ali? - perguntou.
- Senhor - responderam-lhe - é porque escreveu libelos contra os ministros de Vossa Majestade.
- Grande tolo! - exclamou o rei - Por que não os escreveu contra mim? Nada lhe teria acontecido."

(Na gravura vemos, junto ao primeiro pelourinho de São Vicente, o governador Braz Cubas lendo o foral da vila)

Recomendação do dia: O livro "Estado de Direito Já! - os 30 anos da Carta aos Brasileiros", ed.Lettera.doc, que retrata um dos marcos mais importantes da luta pela democracia no país, reunindo 23 personalidades de nossa história que compartilham, com emoção e riqueza de detalhes, as suas lembranças da época.

Domingo, Setembro 02, 2007

Os Fins Justificam os Meios


Por mais de cinco séculos, o nome Maquiavel tem sido associado ao mundo da política e da crueldade...Tendo ao longo da vida ganhado fama de figura corrupta e gananciosa, na verdade Maquiavel foi um intelectual e teórico brilhante que, após a subida dos Médici ao poder, perdeu seu emprego, foi acusado de sedição, preso e torturado. Libertado mais tarde, começou a escrever sua obra-prima, "O Príncipe", baseado em sua vasta experiência política. Dividida em 26 capítulos curtos, a princípio a obra foi recebida quase com indiferença e sua recepção imediata mal pode ser chamada de positiva ou negativa. Editado, lido e debatido ainda hoje, quando vende milhares de cópias em todo o mundo anualmente, o livro é considerado um dos mais importantes já publicados no Ocidente...É também uma das obras mais mal compreendidas que já existiram e aqueles que comprendem mal sua intenção, também compreendem mal o homem que o escreveu.

Recomendação do dia: O livro "Abril Sangrento", de Lauro Martines, ed.Imago, que nos oferece um retrato original da Florença renascentista, onde realizações artísticas deslumbrantes caminhavam de mãos dadas com violência, sadismo e truculência política.

Domingo, Agosto 19, 2007

A Escória do Reino


Degredados portugueses estiveram presentes no Brasil durante mais de três séculos, desde quando Cabral deixou os dois primeiros no litoral da Bahia, até a independência em 1822. Esses homens e mulheres que integraram a população brasileira, faziam parte dos estratos mais humildes da sociedade portuguesa, tendo sido condenados por tribunais civis ou pela Inquisição, por crimes que variavam desde roubo de trigo, até adultério, bigamia e homicídio. Na verdade, alguns grupos sociais como o dos ciganos e o dos cristãos-novos foram sistematicamente perseguidos e sentenciados com o degredo colonial; aqui no Brasil viviam em liberdade, porém eram responsáveis pela própria sobrevivência, ganhando a vida como soldados, agricultores, carpinteiros, padres, curandeiros, parteiras, ladrões, prostitutas etc. Poucos enriqueceram ou alcançaram alguma projeção social e a maioria continuou a viver exatamente da maneira como fazia na metrópole, gerando frequentes queixas das autoridades coloniais; uma parte, porém, retornou a Portugal após o cumprimento da pena ou pelo perdão real. A prática penal do degredo (adotada em todas as colônias portuguesas) promovia a "desinfestação" - termo utilizado em documentos oficiais - do reino, livrando-o de indivíduos indesejados, considerados agentes de desestabilização social.

(Na gravura vemos integrantes da expedição de Cabral na primeira observação astronômica em solo brasileiro. A reconstituição baseia-se em cartas enviadas ao rei D.Manoel)

Recomendação do dia: O DVD "Desmundo", que relata as desventuras de Oribela, uma órfã portuguesa de 13 anos trazida com outras meninas para se casar com colonos e assim garantir a pureza racial dos descendentes de portugueses no Brasil do século XVI.

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

Anti-Semitismo


O anti-semitismo não foi uma invenção do Nazismo, embora tenha sido justamente na Alemanha, por volta de 1880, que apareça a palavra "Antisemitismus", encontrando rápida difusão. Os mais importantes dicionários da época definem o termo como movimento de opinião contrária aos judeus e, atualmente, registram anti-semitismo como doutrina ou atitude de hostilidade em relação aos judeus. Porém, a realidade do anti-semitismo precedeu historicamente o aparecimento do vocábulo. Na verdade, embora o aspecto especificamente racista do anti-semitismo tenha só aparecido na primeira metade do século XX e constituído-se em uma de suas últimas formas, a hostilidade contra os judeus, de ordem religiosa, é muito mais antiga. Resta, então, definir o objeto desse anti-semitismo, o judeu. "Judeu" é uma pessoa ligada a um povo ou a uma religião, porém nos dicionários sempre reaparece o preconceito - judeu é associado frequentemente à mesquinhez e avareza. Isso explica porque no século passado muitos franceses tenham preferido ser tratados de israelitas, o que tinha um ar mais conveniente e "assimilado", a serem chamados de judeus.

Recomendação do dia: o livro "O que deu errado no Oriente Médio?", de Bernard Lewis, Jorge Zahar Editor, onde esse especialista em estudos sobre o Oriente Médio procura decifrar e explicar a tensa relação entre o Islã e o Ocidente.

Domingo, Agosto 05, 2007

Em Defesa dos Mortos


Salvador, 25 de outubro de 1836: uma multidão pluriclassista e multiracial destrói o cemitério do Campo Santo. Inaugurado três dias antes, ele havia sido construído por uma empresa que obtivera do governo o monopólio dos enterros da cidade. Até aquela data, as pessoas eram sepultadas nas igrejas, costume considerado essencial para a salvação das almas. A revolta contra o cemitério, denominada "Cemiterada", foi feita por centenas de manifestantes em defesa de uma vida melhor no outro mundo. Na luta, confrades de diversas agremiações religiosas brandiam estandartes e ostentavam hábitos coloridos, representando uma cultura funerária afeita ao espetáculo e refratária à medicalização da morte. Vinte anos depois do levante, a epidemia de cólera, trazendo em seu rastro a experiência cotidiana dos corpos putrefatos, provocava alterações que as leis e autoridades, impondo o cemitério, não tinham sido capazes de desencadear. A morte deixava de ser uma festa para se tornar uma ameaça terrível.

(Na aquarela, Jean-Baptiste Debret retrata um cortejo fúnebre no Brasil do início do século XIX)

Recomendação do dia: o livro "Vida no Brasil", de Thomas Ewbank, ed.usp, um fascinante registro da cidade do Rio de janeiro em 1845/46 na visão desse viajante norte-americano, cujo testemunho nos fornece um painel do passado, analisando costumes e hábitos do povo carioca no século XIX.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

Boemia Intelectual


Cafés e bares desempenharam papel de destaque na vida intelectual italiana, francesa e britânica a partir do século XVII, pois eram locais onde conversações livres e criativas propiciavam aprendizagens não reguladas, sendo importantes na promoção de um saber inovador. Os donos desses estabelecimentos frequentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão de notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de “opinião pública” ou “esfera pública". Essas instituições facilitavam encontros entre idéias e indivíduos. Palestras sobre Matemática eram oferecidas no "Dougla’s" e no "Marine Coffe-House" em Londres, enquanto o "Child’s" era frequentado por livreiros e escritores... Já em Paris destacava-se o "Procope", fundado em 1689 e que servia como ponto de encontro para Diderot e seus amigos às vésperas da Revolução Francesa.

(Na gravura vemos o famoso "Café de Paris", criado em 1822 e considerado, até seu desaparecimento em 1856, como o “Templo da Elegância”. Por ele passaram algumas das mais notáveis figuras da época (entre elas Alexandre Dumas) que degustavam uma das melhores cozinhas que Paris já havia conhecido. Não era contudo um reduto para os amantes da noite pois, em qualquer estação, fechava suas portas às 22:00 hs)

Recomendação do dia: o livro "O Povo de Paris", de Daniel Roche, ed.usp, obra que ilumina a vida cotidiana de um dos maiores personagens da História: o povo de Paris. Clássico da História Social, revela as maneiras de viver, as condições materiais e até as possibilidades de lazer da massa parisiense durante o agitado século XVIII.

Domingo, Julho 22, 2007

O Fim da Infância


Na sociedade pré-industrial a criança e o adolescente eram encarados de uma forma diferente da dos dias atuais. A duração da infância era reduzida; a criança logo que adquirisse algum desembaraço físico era misturada aos adultos e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena transformava-se imediatamente em homem ou mulher jovem, sem passar pelas etapas da juventude, o que é um aspecto essencial das sociedades evoluídas de hoje. A passagem da criança pela família era, portanto, muito breve e insignificante para que se tivesse tempo ou razão de forçar a memória ou a sensibilidade, como é demonstrado pela raridade das alusões às crianças e às suas mortes nos diários de famílias medievais. A partir do fim do século XVIII tudo muda; a escola substitui a aprendizagem como meio de educação e a criança deixa de aprender a vida diretamente, através do contato com adultos, sendo mantida em uma espécie de quarentena antes de ser solta no mundo. Começou então um longo processo de enclausuramento que se estenderia até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização...

(Em "A Família de Tito", quadro pintado em 1668 pelo holandês Rembrandt, podemos observar crianças vestidas como adultos)

Recomendação do dia: O livro "O Mito da Idade Média", de Regine Pernoud, ed.Europa-América, onde a historiadora francesa desafia a opinião generalizada de que o período medieval teria sido uma época de trevas, encaixada entre os séculos gloriosos da Antiguidade e do Renascimento.

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Tribos Pagãs


Cinco milênios atrás, antes mesmo que os egípcios construíssem suas pirâmides, um povo misterioso criava monumentos no mundo antigo. Eram as tribos pagãs da velha Inglaterra que, durante trinta séculos até a chegada dos romanos, foram os responsáveis pelo erguimento de impressionantes santuários e tumbas coletivas. Apesar de atrasados tecnologicamente, descobriram meios de transportar enormes blocos de pedra por centenas de quilômetros e ainda inventaram uma técnica para registrar a passagem das estações do ano. As tribos pagãs viviam sem a escrita, portanto poucas pistas temos de como conseguiam erguer tantas estruturas, porém 50 séculos não apagaram as provas evidentes e até hoje visíveis do que realizaram...

(Na foto, Stonehenge, o mais famoso monumento pagão do mundo. Localizado no sul da Inglaterra, seu propósito vem intrigando gerações de pesquisadores, porém como parece claro que a tentativa de comunicação com os mortos era parte essencial da vida pagã, é quase certo que o conjunto de monólitos que formam Stonehenge tinha um importante papel em rituais fúnebres, sendo encarado como um portal para o mundo dos espíritos)

Recomendação do dia: O livro "A História do Alfabeto", de John Man, Ediouro - A idéia por trás do alfabeto (que a linguagem com toda sua riqueza de sentidos pode ser registrada por uns poucos símbolos gráficos) é extraordinária. Do surgimento do alfabeto ocidental até sua presente evolução, o livro nos mostra a contribuição vital de 26 letras para o nosso senso de identidade.

Domingo, Julho 08, 2007

Pela Glória do Império


"O inglês nasce com um certo poder milagroso que o torna senhor do mundo. Quando deseja alguma coisa, ele nunca diz a si próprio que a deseja. Espera pacientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável convicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa que ele deseja possuir..." Assim referia-se o dramaturgo inglês Bernard Shaw sobre os métodos de conquista empregados pelos ingleses durante o Neocolonialismo. A partir da metade do século XIX, na ânsia pela descoberta de novas fontes de matérias primas e de novos mercados consumidores, os europeus partem para a conquista de áreas desconhecidas. Desta forma, as marginalizadas África e Ásia foram os alvos preferenciais do Imperialismo e de disputas territoriais, prenúncios de tormentos somente compreendidos diante dos horrores da Primeira Guerra Mundial.

Recomendação do dia: o livro "O Fantasma do Rei Leopoldo", de Adam Hoschild, Ed.Companhia das Letras, que nos mostra a pilhagem genocida exercida pelo rei da Bélgica Leopoldo II ao longo do vasto e inexplorado território que circundava o rio Congo, relatando detalhes macabros, tais como casas e jardins de orgulhosos oficiais belgas decorados com crânios humanos. Tais crimes geraram o primeiro grande movimento por direitos humanos do século XX.

Sábado, Junho 30, 2007

Médicos e Curandeiros


Médicos, no Brasil do século XIX, eram artigos raros e caros. Mais do que isso, eram motivo de chacota em desfiles de carnaval e piadas de jornais; suas prescrições causavam verdadeiro pânico entre os mais variados pacientes: homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos. Para lutar contra as dificuldades que enfrentavam, travaram verdadeira guerra contra autoridades das províncias e da corte e, principalmente, contra a imensa variedade de concorrentes nos exercícios das artes de curar, como curandeiros, médiuns, barbeiros, boticários, benzedeiros, homeopatas, parteiras e até supostos "doutores" estrangeiros...

(A caricatura acima retrata cenas da "Revolta da Vacina", ocorrida durante o governo Rodrigues Alves a partir da aprovação no dia 31 de outubro de 1903 da lei da vacinação obrigatória. Preparado pelo médico Oswaldo Cruz - que tinha pouquíssima sensibilidade política - o projeto de regulamentação sai cheio de medidas autoritárias. O texto vaza para um jornal e no dia seguinte à sua publicação, começam as agitações no centro da cidade. Financiados pelos monarquistas — que apostavam na desordem como um meio de voltar à cena política — jacobinos e florianistas usam os jornais para passar à população suas idéias conspiradoras, por artigos e charges; no dia 16 de novembro, o governo revoga a obrigatoriedade da vacina, mas continuam os conflitos isolados, nos bairros da Gamboa e da Saúde. Dia 20, a rebelião está esmagada e a tentativa de golpe, frustrada. Começa na cidade a operação “limpeza”, com cerca de 1000 detidos e 460 deportados).

Recomendação do dia: o livro "Cidade Febril - Cortiços e Epidemias na Corte Imperial", de Sidney Chalhoub, Ed.Companhia das Letras - Escrito de forma apaixonante e bem-humorada, o livro reinterpreta conflitos de poder no Rio de Janeiro do século XIX à luz da história social.

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Sexo, Desvio e Danação


Durante séculos, os historiadores têm estudado a guerra e o dinheiro, as leis e a religião, porém só recentemente eles se voltaram para o estudo em profundidade do instinto primitivo da humanidade: a ânsia de se reproduzir e desse modo perpetuar a espécie através do sexo. O tabu intelectual atesta desse modo o poderoso legado do pensamento e dos ensinamentos cristãos na civilização ocidental. No século XIX, passagens que lidassem com questões sexuais em textos antigos eram deixadas na"obscuridade decente de uma linguagem clássica". A cristandade foi, desde seus primórdios, uma religião negativa quanto ao sexo e os pensadores cristãos o encaravam na melhor das hipóteses como um mal necessário, lamentavelmente indispensável para a reprodução humana, mas que perturbava a verdadeira vocação de uma pessoa: a busca da perfeição espiritual.

(Na gravura, uma casa de banhos para prostitutas no século XVI. Parte integrante da vida urbana desde a Idade Média, as prostitutas eram segregadas pela Igreja e pelo Estado, que adotava uma postura semelhante à utilizada em relação a leprosos, ou seja, elas seriam diferenciadas do restante da população pela prescrição de uma marca de infâmia, geralmente com códigos de vestimenta distintivos e atuando em zonas da "luz vermelha").

Recomendação do dia: o livro "A Invenção da Pornografia", org.Lynn Hunt, Ed.Hedra - Obra que relaciona o surgimento da obcenidade com os momentos de formação da modernidade e democratização da cultura do Ocidente...Sim, a pornografia tem sua história e, entre heréticos, livre-pensadores e libertinos, autores como Sade colocaram à prova o "decente", questionando os relacionamentos sexuais e sobretudo sociais.

Sábado, Junho 23, 2007

Exercícios Espirituais


A experiência de catequese das missões jesuíticas, com a visão inicial de inocência dos indígenas e do correspondente otimismo quanto à facilidade de lhes inculcar o credo, chegou até a convicção de que, diante da resistência do nativo em abandonar seus "vícios"(poligamia, nudez, canibalismo etc), a via mais eficiente para legitimar a autoridade dos colonizadores seria o consentimento gerado pelo medo. Como explicou sutilmente São Tomás de Aquino (lição bem compreendida e aplicada por Nóbrega e Anchieta no Brasil), o medo não se confunde com coerção, pois esta comprometeria a conversão, que não pode ser forçada, já que depende de graça divina. Chegou-se assim à conclusão de que para tornar os índios mais propensos a adotar a fé cristã cumpria pô-los diante de um dilema:subordinar-se "voluntariamente" à ordem colonial agrupando-os em aldeias tuteladas pelos padres, ou encarar a perspectiva de serem caçados e escravizados pelos colonos. Nos dois casos teriam de renunciar à própria identidade cultural.

(Na foto, ruínas na região de Sete Povos das Missões, uma das principais comunidades jesuíticas do sul do país e que foi destruída em meados do século XVIII pelas forças espanholas e portuguesas)

Recomendação do dia: O DVD "A Missão", que relata o conflito de interesses entre os colonizadores em busca do enriquecimento em contraponto com o papel dos jesuítas que queriam as reduções longe dos centros povoados, onde eles mesmos teriam o controle espiritual e temporal.

Domingo, Junho 17, 2007

Quando o mundo encolheu


Foi há mais de 600 anos, no século XIV, que uma doença varreu o mundo numa apavorante pandemia conhecida como "Peste Negra". Todas as nossas imagens da peste são coloridas pelas recordações de medo e morte deixadas pelos sobreviventes europeus daquele horror global. Uma doença que nunca tinham visto antes apareceu do nada; quase metade da população da Europa foi infectada e cerca de um terço morreu de forma rápida e horrível. Somente 500 anos depois é que a descoberta dos germes permitiria explicar tamanho horror. Sabe-se que a peste (transmitida por pulgas) pode infectar duas centenas de animais diferentes e que, antes de atingir os seres humanos, ela vivia entre os ratos e viajava pela superfície do planeta. Tivemos notícia da peste somente quando os destinos de homens e roedores se cruzaram...

(A gravura mostra a remoção de corpos de pessoas atingidas pela peste na cidade italiana de Florença, por volta de 1340)

Recomendação do dia: O livro "Gripe", de Gina Kolata, Ed.Record - Nessa obra a jornalista norte-americana desvela o mistério dessa outra doença letal ao acompanhar o trabalho de cientistas que descobrem fragmentos do vírus em corpos congelados de pessoas contaminadas em 1917 no Alaska. A autora esmiuça a história da gripe, relata a corrida para resgatar traços do vírus em boas condições para pesquisas e sonda o medo que impeliu as políticas governamentais nos EUA e na Europa.

Sábado, Junho 16, 2007

Hanna e a História


Existem autores que periodicamente voltam a ficar na moda; um deles é a filósofa alemã Hanna Arendt. Bela e inteligente, tudo tinha para agradar(aliás agradou a Heidegger, de quem foi nos anos 20 estudante e amante). Depois, a partir de 1933, a tempestade desabou sobre a Europa; enquanto seu guia tornava-se um reitor simpático ao Nazismo na Universidade de Freibourg, a jovem pensadora judia, que apenas tinha tido tempo de publicar sua tese sobre "Conceito de Amor em Santo Agostinho", buscava o rumo do exílio, passando pela França(onde participa no trabalho de uma organização que facilitava a emigração de judeus para a Palestina), pela Espanha e finalmente instalando-se nos EUA em 1941. Terminada a guerra, a escritora decide passar o resto de sua vida na América, onde publica diversos trabalhos nos quais transmite a idéia de que a História pode ser trágica e que dela retiram-se lições.

(Na foto, três fases distintas da vida de Arendt, nos anos 20, 40 e 60)
Recomendação do dia: O livro "Nos Passos de Hanna Arendt", de Laure Adler, Ed.Record - Essa biografia tenta enfim compreender a mulher generosa, politicamente incorreta, de uma coragem excepcional, que praticava o culto da amizade como um eros e a filosofia como uma arte do "savoir-vivre".

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

O que 68 tem a nos ensinar?


Há 38 anos o mundo tremeu. O ano de 1968 na França, na Tchecoslováquia e no resto do mundo permanece uma incógnita. Os acontecimentos não foram previstos nem mesmo pelos que vieram a liderá-los e, uma vez em marcha, escaparam a todos os modelos, não sendo explicados até hoje por nenhum analista. Na inquietude daqueles dias, verificava-se uma completa desmoralização de todas as ortodoxias. Não foi por acaso que os fatos ocorridos durante o mês de maio de 1968, na França, tiveram inúmeras denominações, desde "acontecimentos de maio de 68", a "as barricadas de 68" ou, numa formulação mais abrangente, simplesmente "maio de 68". Na verdade, a insubordinação estudantil, seguida da operária, levou à uma crise de autoridade na França, propagada pela imprensa, pelo rádio e pela televisão, que transmitiam ao mundo palavras, som e imagens de rebeldia.

(Durante as manifestações parisienses uma série de posters foram produzidos e utilizados como verdadeiras armas de contestação e rebeldia, sendo colocados em paredes e muros localizados no centro dos conflitos, seja nas ruas, nas universidades ou nas fábricas. O desenho acima retrata talvez o mais famoso deles; mostra uma pessoa com a cabeça coberta de bandagens. Não podemos distinguir sua raça, idade ou sexo, mas temos certeza de que essa pessoa foi brutalizada. Seus olhos exprimem dor e angústia, sua boca está fechada com um alfinete. Na legenda está escrito:"Uma juventude que se inquieta demais com o futuro..." O que essa imagem nos diz? É meramente o desenho de alguém que sofreu um abuso das autoridades ou profetiza uma fuga do coletivo dentro da apatia e da covardia? Seja qual for a interpretação, essa imagem continua a ressoar em nossos tempos...)
Recomendação do dia: O livro "Era dos Extremos", de Eric Hobsbawm, Ed.Companhia das Letras - O testemunho do autor sobre o século XX, em um estilo agradável e elegante, discorrendo sobre temas tão distintos como máfia, jazz, rebeldes africanos, política ou economia.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Meu Pai


Nunca havia visto meu pai chorar. Por isso doeu tanto aquele momento no qual lhe disse ter trancado o curso de Engenharia Mecânica na Universidade Gama Filho para tentar o vestibular de História no ano seguinte. Trabalhando na Petrobrás desde 1960, tendo começado como um simples operador e chegado à aposentadoria como supervisor, cargo máximo que se pode atingir com o nível de escolaridade que possuía, papai desejava ver seu filho mais velho formado engenheiro, a fim de que pudesse alcançar na empresa um status que ele nunca pôde obter. Eu, porém, tinha outros planos.

(A gravura acima encontra-se no site da enciclopédia virtual L'agora, um precioso instrumento de pesquisa para quem domina o idioma francês).

Recomendação do dia: O livro "Quase Memória, Quase Romance", de Carlos Heitor Cony, Ed. Companhia das Letras - Uma obra-prima. O autor alterna em grande estilo momentos de ternura e humor ao narrar episódios de sua vida ao lado do pai.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Irlanda


Há lugares que um historiador precisa visitar e, se a mim coubesse uma escolha, em primeiro lugar eu iria à Irlanda, pois gostaria de conhecer a terra e as pessoas cujos antepassados salvaram a Civilização Ocidental. Explico: no período entre a queda de Roma e a ascensão de Carlos Magno - etapa conhecida como "Idade das Trevas" - o aprendizado, a erudição e a cultura praticamente desapareceram do continente europeu. A grande herança da Civilização Ocidental - desde os clássicos gregos e romanos até textos bíblicos de judeus e cristãos - teria sido inteiramente perdida não fosse pelos monges da Irlanda, uma região que permaneceu ilesa aos ataques das hordas bárbaras. Com a volta da estabilidade à Europa, os estudiosos irlandeses foram instrumentais na disseminação deste conhecimento. Eis a razão pela qual gostaria de conhecer esse povo, que não apenas preservou a civilização, mas também se tornou formador da mentalidade medieval, colocando sua marca singular na cultura ocidental.

(A foto mostra as ruínas de um mosteiro franciscano fundado em 1357 na localidade de Headford, Irlanda. Em locais como esse, longe dos saques ocorridos no continente, monges e escrivães, com amor e desprendimento, copiaram e preservaram laboriosamente os tesouros manuscritos do Ocidente)

Recomendação do dia: O livro "Quando Jesus se tornou Deus", de Richard E. Rubenstein, Fisus Editora - São poucos os cristãos desse século que sabem da intensa disputa religiosa, social e política que marcou 60 anos do século IV. O autor explica os elementos da luta teológica que se refletiu em uma monumental mudança histórica: o cristianismo, que de uma seita perseguida, tornou-se a religião oficial do Império Romano.

Domingo, Outubro 22, 2006

A Guerra do Paraguai (uma história mal contada)


A Guerra do Paraguai teve desde seu término inúmeras interpretações dos que a estudaram. A primeira delas, surgida quando ainda viviam os que lutaram no conflito, simplificava a explicação da guerra ao ater-se às características pessoais de Solano López, classificado como ambicioso, tirânico e desequilibrado. Já no início do século XX, adeptos do positivismo, filosofia contrária ao regime monárquico de governo, passaram a responsabilizar o Império brasileiro pelo início da guerra; também nessa época, no Paraguai, Solano López teve sua imagem "reconstruída", passando a ser apresentado como grande estadista e chefe militar. Nas décadas 1960 / 1970, intelectuais nacionalistas e de esquerda "promoveram" Solano López a líder anti-imperialista e apresentaram o Paraguai como uma nação progressista que fugia à subordinação da Inglaterra - entre os livros mais marcantes desse revisionismo podemos citar "Genocídio americano:a Guerra do Paraguai", de J.J.Chiavennato, grande sucesso editorial e que ensinou a gerações de estudantes brasileiros (aí me incluo)que o imperialismo inglês usou a guerra para destruir o Paraguai, "único Estado economicamente livre" da América do Sul. Essa teoria conspiratória não tem provas documentais; na verdade tanto a historiografia conservadora quanto a revisionista simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ignorando documentos e substituindo a metodologia do trabalho histórico pelo emocionalismo fácil e denúncia indignada. Atualmente a superação dos regimes autoritários sul-americanos, os avanços do conhecimento histórico e a abertura de arquivos criaram condições para uma análise mais objetiva do conflito, superando deturpações ou simplificações.

(A gravura mostra a batalha do Avaí, uma dos combates da dezembrada - conjunto de operações militares ocorridas em dezembro de 1868, que também inclui o combate da Ponte de Itororó, planejadas e comandadas pelo então Marquês de Caxias, abrindo acesso a Assunção)
Recomendação do dia: O livro "Maldita Guerra", de Francisco Doratioto, Editora Companhia Das Letras - Escrito em linguagem clara e direta, este livro é fruto de quinze anos de pesquisa em arquivos e bibliotecas do Brasil, do Rio da Prata e da Europa, desfazendo mitos antigos e recentes sobre o conflito.

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Uma Certeza


- "Você ama História?" A pergunta me foi atirada pela professora de supetão e, apesar de surpreso, também sem pensar respondi de imediato:"Amo!". Longe de querer fazer filosofia barata, posso afirmar que aquela questão merecia uma análise melhor da minha parte antes de uma resposta tão descuidada, afinal "amo" é uma palavra que não pode ser dita em vão...Porém hoje, passados tantos anos, reafirmo: "Sim, eu amo História..."

("The State Hermitage Museum", localizado no coração da cidade de São Petersburgo na Rússia, antiga residência de czares, apresenta hoje uma magnífica coleção de trabalhos artísticos - mais de 3.000.000 de ítens - da idade da Pedra ao século XX. Vale a pena dar uma olhada no site do museu, que apresenta uma espetacular visita virtual)

Recomendação do dia: O livro "História das Idéias Políticas", de François Chatelet, Jorge Zahar Editor - Não tendo como objetivo delimitar o saber, apoia-se na idéia da "compreensão": compreender as principais doutrinas que marcaram o desenvolvimento do pensamento político, de Platão a Marx, de Aristóteles a Foucault.