17 de jun. de 2010

A Mona Lisa


A história da pintura não é clara e foi alvo de muita discussão. De acordo com Vasari, a modelo é uma jovem mulher florentina (Mona) Lisa, casada com Francesco del Giocondo e por isso ficando conhecida como "La Gioconda". O trabalho provavelmente foi feito durante a segunda estada de Leonardo em Florença e ele gostou tanto de sua obra que a carregou consigo para a França, onde foi vendida à Francisco I. Há controvérsias sobre esta teoria para a origem do quadro, pois Leonardo sempre mantinha registros dos modelos utilizados nas pinturas e não há um para a Mona Lisa. Outra teoria é a de que a Mona Lisa teria sido um autoretrato de Leonardo, tese apoiada através da digitalização dos dois retratos e superposição das imagens, mostrando claramente que os traços faciais da Mona Lisa se encaixam nos de Leonardo da Vinci. Algumas curiosidades: Mona Lisa foi retratada sem sobrancelhas, como era costume entre as mulheres da época renascentista; os cantos da boca de Mona Lisa são indefinidos, por isso se diz que ela tem um "sorriso enigmático"; a posição das mãos de Mona Lisa serviu de modelo para pintores durante muitos anos; no fundo da pintura, Da Vinci utilizou a técnica da perspectiva aérea, novidade para a época.

Recomendação do dia: O livro "Teoria Artística na Itália 1450-1600", de Anthony Blunt - ed.Cosac & Naify, uma história social do pensamento artístico na Itália renascentista.

4 de jun. de 2010

A Princesinha do Mar





A primeira lenda que se conhece sobre Copacabana conta que duas baleias teriam aparecido na praia, no final de agosto de 1858. Entre os dias 22 e 23 daquele ano, centenas de pessoas - com o imperador Pedro II e sua comitiva à frente - deslocaram-se para vê-las. Os mais ricos seguiam de coches, puxados a cavalo, e levavam lanches e barracas para se acomodarem. Outros iam a cavalo, ou mesmo a pé. As baleias não estavam mais lá; apesar disso quem ficou na praia divertiu-se muito, num piquenique que durou três dias e três noites, começando aí o namoro da população do Rio de Janeiro com aquele areal inóspito e insalubre.

Recomendação do dia: O livro "Cocheiros e Carroceiros", de Ana Maria da Silva Moura, ed.Hucitec, que trata da vida e trabalho dos cocheiros e carroceiros que, no final do século XIX, percorriam o Rio de Janeiro transportando cargas, servindo as Companhias de Comércio. Num mundo de senhores e escravos, a autora revela a história desses homens livres e pobres que faziam parte da construção coletiva de uma cidade que se modernizava.

3 de jun. de 2010

O Grande Terremoto


Em 1º de Novembro de 1755, às 9:45 da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés. O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». Em breves instantes o que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. Era um sábado, dia de Todos-os-Santos, estando as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. O abalo durou cerca de sete minutos e transformou, em tão curto tempo para tão desoladora mudança, uma cidade cheia de animação e de movimento, num montão de ruínas. Por volta das 11 da manhã, as vagas de um tsunami gerado pelo choque do tremor chegaram a Lisboa. As águas do Tejo inicialmente desceram, levando consigo os barcos ancorados junto ao cais. Em seguida, começaram a subir de nível, galgaram as paredes do cais e avançaram cidade adentro uns 300 a 400 metros. Segundo testemunhos da época, a altura da onda resultante do sismo foi de vinte metros, causando 6000 vítimas entre a multidão que havia sido atraída pelo insólito espectáculo do fundo do rio juncado de destroços dos navios ali afundados ao longo do tempo. Dos 275 mil habitantes que Lisboa tinha então, crê-se que morreram 90 mil. À pergunta inevitável - “E agora, que fazer?” - um ministro teria respondido “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”

Recomendação do dia: O livro "A Viagem Marítima da Família Real", de Kenneth Light, ed.Zahar, que reconstitui as aventuras da corte portuguesa na travessia do Atlântico rumo ao Brasil, contando detalhes do dia-a-dia, como se media o tempo e o que comiam, compondo um quadro mais vivo dessa longa viagem.

30 de mai. de 2010

Independência ou Morte!


Embora a independência política do Brasil tenha sido um "arranjo político", segundo a expressão do historiador Caio Prado Jr., ela implicou uma acirrada luta social. Várias camadas sociais disputavam a liderança, desejando imprimir ao movimento libertador o sentido que mais convinha e interessava a cada uma. No final, venceu a aristrocacia rural dos grandes proprietários escravistas. Alguns fatos curiosos: na proclamação, D.Pedro não estava viajando a cavalo, já que para viagens longas só era usado o burro. Além disso, o imperador tinha acabado de se encontrar com sua amante Domitila de Castro, por isso viajava secretamente e não poderia estar com uma grande comitiva e nem usando traje oficial. Mais: o famoso grito não aconteceu às margens do riacho do Ipiranga, como sugere a letra do Hino Nacional; o príncipe bradou a célebre frase no alto da colina próxima ao riacho, onde sua tropa esperava que ele se aliviasse de um súbito mal-estar intestinal. O Brasil pagou 2 milhões de libras a Portugal pela Independência; D.Pedro não pediu nenhuma possessão portuguesa - caso de Angola, na África, cuja elite quis fazer parte do Império do Brasil para facilitar o tráfico de escravos.

Recomendação do dia: O livro "As Quatro Coroas de D.Pedro I", de Sérgio Corrêa da Costa - ed.Paz e Terra, no qual, a partir da análise de diversos documentos de época, o autor relata as oportunidades que teve o imperador de governar outros países; as "Quatro Coroas" seriam da Grécia e da Espanha,além de Portugal e Brasil.

20 de mai. de 2010

Melhores Blogs de História - 2010

Olá amigos, obrigado pelos votos, o blog alcançou a segunda colocação geral na escolha dos internautas e ficou em primeiro lugar segundo a escolha dos membros efetivos do IPHR, VALEU!!!


De acordo com o edital de indicação foram selecionados três blogs da área de História nas três classificações:


1º- Melhor Blog de História - Escolha dos Internautas:
História Digital

2º Melhor Blog de História - Escolha dos Membros Efetivos do IPHR;
Um Professor de História

3º Melhor Blog de História - Escolha da Diretoria do IPHR;
Fontes Primárias no Vale do Paraíba

Parabéns aos vencedores, pedimos que entrem em contato pelo e-mailiphrpesquisa@yahoo.com.br, para combinarmos a premiação.

Nossa iniciativa é fazer com que estas páginas ganhem cada vez mais reconhecimentos como fontes acadêmicas, educacionais e para pesquisas diversas de curiosos. É importante ressaltar que foram usados alguns critérios na avaliação:

1- Criatividade e Organização;

2- Conteúdo Oferecido;

3- Atualização de Informações;

4- Temáticas tratadas dentro das finalidades da Instituição.

19 de mai. de 2010

O Último Barão


Em 30 de setembro de 1889, pouco mais de um ano após a Abolição, morria na sua Fazenda de São Joaquim da Grama, em Rio Claro, no Rio de Janeiro, o comendador Joaquim José de Souza Breves, conhecido como o “rei do café” no Brasil Imperial. Foi, sem dúvida, o maior proprietário de escravos e terras do século XIX, chegando a ter mais de seis mil cativos. Acumulou fortuna somando a compra de fazendas à herança dos pais e ao casamento com sua sobrinha, filha dos barões do Piraí. No seu inventário constavam 72 fazendas, imóveis nas cidades e na capital, ilhas e embarcações. Breves não acreditava na Abolição. Continuou comprando escravos após a proibição do tráfico negreiro em 1850 e, mesmo depois do 13 de maio, tirou o velho relho (chicote) da parede e deu uma surra numa escrava chamada Basília, que tinha “emburrado” e não queria voltar ao trabalho. Além de potentado do café, Breves foi testemunha ocular da História. Aos 18 anos, ele acompanhava o príncipe D. Pedro na jornada do Ipiranga, tendo o privilégio de assistir à cena do grito da Independência. Foi o último sobrevivente do episódio, que rememorava entusiasmado na velhice, dizendo que a indisposição e o mau humor de D. Pedro no dia 7 de setembro de 1822 se deviam em grande parte a uma feijoada que comera na véspera.

(Na foto, a Capela de São Joaquim da Grama, onde repousam os restos mortais do comendador. De imponente arquitetura classicizante, a igreja, de planta complexa e simétrica, com suas duas torres próximas sobre a nave, se destaca na paisagem vazia da fazenda. Seu conjunto arquitetônico encontra-se em estado de abandono, encontrando-se sem cobertura e em processo de arruinamento.)

10 de mai. de 2010

O Fogo


Um novo estudo concluiu que seres humanos conseguiam produzir fogo há cerca de 790 mil anos, habilidade que contribuiu para a migração da África para a Europa. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém, após análise de um sítio arqueológico no vale do rio Jordão. Um estudo de 2004 no mesmo local mostrou que, naquele período, o homem era capaz de controlar o fogo - fazia sua distribuição, por exemplo, por meio de galhos. Agora, o trabalho publicado na "Quaternary Science Reviews" diz que ele conseguia gerar fogueiras e não apenas aproveitar faíscas que resultavam de raios. Os novos dados mostram que o homem pré-histórico não era dependente de fogo natural, o que ajudou a impulsionar a migração para o norte, pois ao conseguir dominar o fogo para se proteger de predadores e garantir calor e luz, estava seguro para povoar terras desconhecidas.

Recomendação do dia: O filme "A Guerra do Fogo", de Jean-Jacques Annaud, que levanta hipóteses sobre a origem da linguagem através da busca de três hominídeos por uma nova fonte de fogo perdida por sua tribo. O filme surpreende pela sensibilidade com que trata um tema tão complicado, onde povoam ainda poucas certezas e muitas teorias.

8 de mai. de 2010

Vida de Professor

Cabral não foi o primeiro...


Em dezembro de 1498, uma frota de oito navios, sob o comando de Duarte Pacheco Pereira, atingiu o litoral brasileiro e chegou a explorá-lo, à altura dos atuais estados do Pará e do Maranhão. Essa primeira chegada dos portugueses ao continente sul-americano foi mantida em rigoroso segredo. Estadistas hábeis, os dois últimos reis de Portugal entre os séculos 15 e 16 - D. João II e D. Manuel I - procuravam impedir que os espanhóis tivessem conhecimento de seus projetos. Ao entardecer do dia 22 de abril de 1500, a frota de Pedro Álvares Cabral ancorou a 36 quilômetros da costa baiana. No dia seguinte, chegaram mais perto da praia e avistaram sete ou oito homens andando na areia. Nicolau Coelho, Gaspar da Gama, um grumete e um escravo africanos foram os primeiros a desembarcar. O grupo na praia já aumentara para vinte homens, todos nus. Quando os nativos se aproximaram do barco apontando seus arcos e flechas, Nicolau Coelho fez-lhes sinal para que largassem as armas, no que foi obedecido. Ainda de dentro do barco, ele atirou um gorro vermelho, um sombreiro preto e a carapuça de linho que usava. Em troca, os índios lhe deram um cocar e um colar de pedras brancas... Assim, a chegada de Cabral ao Brasil é dois anos posterior à de Duarte Pacheco. Além disso, o atual território brasileiro já era habitado desde tempos pré-históricos: cerca de cinco milhões de índios aqui viviam em 1500.

Recomendação do dia: O filme "Hans Staden" (foto), dirigido por Luiz Alberto Pereira, que traz os primórdios da colonização do Brasil, envolvendo as diferentes culturas existentes na época, como índios, portugueses, espanhóis e franceses.

1 de mai. de 2010

Hesíodo e o Trabalho


Poeta grego, de fama comparável à de Heródoto, Hesiodo foi o mais antigo escritor de que se tem notícia. Espalhou, através de seus poemas - especialmente “Os Trabalhos e os Dias” - preceitos morais e de conduta para a juventude, valorizando o esforço dos camponeses e condenando o ócio e as guerras. Hesíodo viveu durante o período Arcaico da Grécia, entre os séculos VIII e VII a.C. Posteriormente, no apogeu das Cidades-Estado, a sociedade seguiu normas, costumes e tradições contrárias aos ensinamentos pregados por ele. O ócio passou a ser extremamente valorizado como forma do cidadão poder participar dos negócios de Estado e fiscalizar suas propriedades rurais; o trabalho manual, que exige esforço do corpo, foi destinado aos escravos, àqueles que nada mais podiam oferecer além dos serviços pesados. Tudo o que temos de notícias a respeito de Hesíodo foi contado por ele mesmo, inclusive sua própria biografia, por isso nem mesmo sua existência é assegurada. Como os poemas homéricos, sua obra parece ser uma coletânea de mitos e tradições conservados oralmente — no caso, tradições da Beócia, região em que viveu. Hesíodo foi, no entanto, o primeiro a utilizar suas próprias experiências como tema de poesia e a cantar a vida simples do homem do campo.

Recomendação do dia: O livro "O Mundo de Homero", de Pierre Vidal Naquet, ed. Companhia das Letras, onde com erudição e clareza, fazendo-se compreender também pelo leitor comum e não somente por especialistas, o autor oferece-nos a síntese dos conhecimentos atuais a respeito do mundo que gerou Homero.

11 de abr. de 2010

A Guarda do Imperador


A Guarda Pretoriana era um corpo militar de elite formado para proteger o imperador romano e sua família; em certas ocasiões este corpo alcançou tanto poder que foi decisivo na escolha ou permanência dos próprios imperadores. Vestiam-se de forma diferenciada e as guardas reais do presente século são suas herdeiras no que tange a questão de proteção da família real. A partir de Augusto, todos os imperadores tiveram uma guarda pretoriana, de tamanho variável. O termo Guarda Pretoriana quer dizer "A Guarda do Pretório"; o praetorium era a parte central do acampamento de uma legião romana, onde ficavam alojados os oficiais superiores. No ano de 23 d.C., com Tibério como imperador, inaugurou-se o acampamento permanente da Guarda Pretoriana, chamado Praetoria Castrates, localizado nas cercanias de Roma; desde então a Guarda Pretoriana passou usar o escorpião - que era o signo de Tibério - como distintivo da unidade militar, em seus escudos e no seu estandarte. Os pretorianos geralmente chegavam à Guarda através de seus serviços nas legiões. Eles tinham que ser muito bem recomendados, passar em alguns exames, conhecimentos e testes físicos exaustivos. Segundo Edward Gibbon, foi Diocleciano quem, tendo em vista a necessidade de reformas, desmobilizou a Guarda Pretoriana. Tal ação foi sendo executada de forma deliberada e imperceptível ao longo de vários anos.

Recomendação do dia: O livro "Juliano", de Gore Vidal, ed.Rocco, uma reconstituição romanceada do imperador romano que tentou restaurar o paganismo, retratando admiravelmente o cotidiano do fim do Império com sua depravação e corrupção.

28 de nov. de 2009

Polacas


As ruas de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro acostumaram-se a receber um grupo de mulheres que, por quase um século, prostituiu-se. Nascidas no Leste Europeu – e, por isso, conhecidas aqui como “polacas” –, elas eram judias, pobres, sem dote para um bom casamento e quase sempre analfabetas. Saíram de seus países fugidas, com medo das ondas de anti-semitismo. Sem perspectivas, acabaram recrutadas por cafetões. O relato mais antigo da chegada das polacas por aqui data de 1867 e o documento menciona a chegada ao porto do Rio de 104 “meretrizes estrangeiras” – dessas, 67 ficaram e 37 seguiram para Argentina.
A história das polacas foi esquecida. Primeiro porque não tinham sucessoras. Depois porque sempre foram discriminadas – inclusive pela sociedade judaica brasileira da época, que não permitia a elas nem um enterro digno. A maior parte das polacas está enterrada em cemitérios construídos por associações que fundaram no Brasil, como o Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio. Expressões usadas pelas polacas judias deram origem a palavras hoje muito populares no Brasil. Quando suspeitavam que um cliente tinha doença venérea, diziam ein krenke (“doença”, em iídiche), que acabou se transformando em “encrenca”. E, quando a polícia dava incertas nos bordéis, elas gritavam sacana (“polícia”) – que virou “sacanagem”.

(Na foto, de Augusto Malta, uma polaca e sua escrava)
Recomendação do dia: O livro "Baile de Máscaras: mulheres judias e prostituição - As polacas e suas associações de ajuda mútua", ed.Imago, onde Beatriz Kushnir faz uma brilhante pesquisa sobre o mundo privado de mulheres tidas como públicas.

12 de jun. de 2009

Vestígios de Poder


A cidade inca de Machu Picchu, nos Andes, localizava-se a uma altitude de cerca de 2500m e apesar de oculta e livre dos espanhóis (nada é mencionado em suas crônicas), foi abandonada ainda no sec. XVI por razões e em circunstâncias ignoradas. Acreditava-se que as ruínas incas haviam sido “descobertas” por Hiram Bingham, da Universidade Yale em 1911, entretanto, em 1989, o cartógrafo americano Paolo Greer encontrou um mapa alemão datado de 1874 que já as indicava. Indo atrás da história desse enigmático mapa, Greer e sua equipe conseguiram comprovar que o verdadeiro descobridor de Machu Picchu foi o alemão Augusto R. Berns, minerador e proprietário de terras na região das ruínas por volta de 1867. Atualmente Machu Picchu pode ser destruída a qualquer momento por deslizamentos de terra. De acordo com geólogos japoneses que tem monitorado o local, o declive na parte posterior do sítio arqueológico está recuando cerca de 1 cm por mês, podendo haver uma movimentação de terra de até 100 m de profundidade, danificando irreparavelmente as antigas estruturas.

(A foto mostra as famosas ruínas, nas quais foram encontrados milhares de esqueletos, sendo que 80% eram de mulheres)
Recomendação do dia: O DVD do filme "Queimada", dirigido por Gillo Pontecorvo que, com visual e narrativas impressionantes, além de grande atuação de Marlon Brando, explora temas como colonialismo e insurreição.

31 de dez. de 2008

Uma Boa Transação


Aprendemos que os holandeses foram expulsos do Brasil em 1654, numa guerra valente movida contra eles por índios, negros e portugueses. Só faltou explicar como essa gente armada de espingarda, espada e arco e flecha foi capaz de vencer a principal potência econômica e militar do século XVII. Na verdade, Portugal comprou o Nordeste dos holandeses, pagando o equivalente a 63 toneladas de ouro, após um acordo que foi costurado durante negociações que tiveram início em 1641. A primeira fronteira do Brasil não foi o Rio da Prata ou a Amazônia, mas sim o Nordeste; foi aí que nossa integridade territorial correu maior perigo. Por lamentável que tivesse sido, a perda do Rio Grande do Sul não teria comprometido a unidade nacional - como não o fêz a independência do Uruguai - mas a consolidação do Brasil holandês teria estilhaçado a América portuguesa. Aliás, sem a restauração portuguesa de 1640, não teria havido a restauração pernambucana de 1654, pois a Espanha certamente teria cedido de fato o Nordeste à Holanda. A negociata foi finalizada com o Nordeste sendo pago 2/3 em sal de Setúbal e 1/3 em duas praças-fortes do Malabar outrora conquistadas por Vasco da Gama nas Índias, o que bem simboliza a opção brasileira feita pelo governo português da restauração.

(Na foto, a casa do governador holandês Maurício de Nassau em Haia, hoje museu de pinturas da coleção particular da familia real holandesa)
Recomendação do dia: O livro "História de Antonio Vieira", ed.alameda, de João Lúcio de Azevedo, uma monumental biografia daquele que ficou conhecido como apóstolo dos índios, pregador extraordinário, político ardiloso, amigo dos cristãos-novos, defensor da escravidão dos africanos, intérprete dos profetas e, segundo o poeta Fernando Pessoa, imperador da língua portuguesa.

20 de dez. de 2008

O Grande Khan


Um líder com características ambientalistas e homofóbico. Assim um grupo de cientistas chineses descreve o lendário Gêngis Khan a partir da recuperação daquela que muitos consideram a mais antiga Constituição do planeta: o Código de Gêngis Khan, criado no século 13 pelo conquistador e seus conselheiros. Havia pena de morte tanto para aqueles que "...causarem estragos à pradaria mongol com escavações não autorizadas ou atearem fogo à vegetação" quanto para os que "...cometerem sodomia". O surto homofóbico da lei teria uma explicação estratégica: Gêngis Khan queria estimular a expansão da população mongol, que naquela época somava 1,5 milhão de pessoas, contra os 100 milhões de habitantes da vizinha China. Morreu com cerca de setenta anos, tendo sido sepultado em local até hoje desconhecido; todos os homens ou animais que cruzaram com a imensa caravana que levava os despojos mortais foram imediatamente mortos - não havia vingança nessas matanças, os animais eram eliminados para serem oferecidos em sacrifício enquanto os homens deveriam ser silenciados para garantir o segredo de Estado, pois ninguém deveria saber que o grande guerreiro estava morto até que se finalizassem todas as campanhas militares em andamento.

Recomendação do dia: O DVD do filme "O Ovo da Serpente", de Ingmar Bergman - Na Berlim arrasada pela Primeira Guerra Mundial, um desempregado judeu consegue refúgio no apartamento de um homem que também lhe oferece emprego em uma clínica onde realizam-se experiências pseudo-científicas - Muitas vezes a expressão "ovo da serpente" foi utilizada como metáfora para exprimir a constatação de um mal em processo de elaboração, de incubação. No desenvolvimento do ovo, pode-se acompanhar a lenta e inexorável evolução do monstro(o Nazismo, no caso do filme)que irá nascer.

6 de dez. de 2008

Camisas-Verdes


A tese de que os movimentos fascistas fora da Itália e Alemanha foram imitações apagadas e mal sucedidas parece sustentar-se apoiada em alguns exemplos na América Latina. O PNC(Partido Nazista do Chile) nunca teve grande importância; na Argentina, surpreendentemente, a despeito ou talvez devido à força das ideologias da ala direita, nenhum grande partido fascista vingou na década de 30. Não foi o que ocorreu no Brasil; em 1932 nasce a AIB(Ação Integralista Brasileira) denunciando, segundo o líder do movimento Plínio Salgado, "...a confusão reinante após a Revolução de 30" e exigindo um Estado intervencionista e com amplos poderes. Salgado conhecia Mussolini pessoalmente e certamente foi influenciado por este; tal qual o Fascismo europeu, a ideologia integralista elencou como adversários a combater, o Liberalismo, o Socialismo, o Capitalismo internacional e os judeus, não excluindo a utilização de meios violentos nessa luta. Chegando a reunir mais de 1.000.000 de militantes em 1937 (chamados de "camisas-verdes" devido ao uniforme), a AIB esfacela-se no ano seguinte, após uma fracassada tentativa de chegar ao poder através de um ataque ao Palácio da Guanabara e com Plínio Salgado sendo forçado a rumar para o exílio em Portugal.

(Na gravura, capa da revista "Anauê", saudação de provável origem tupi, significando "meu irmão" e que era utilizada pelos militantes integralistas)
Recomendação do dia: O livro "A Anatomia do Fascismo", de Robert O.Paxton - Ed.Paz e Terra - onde o aclamado historiador norte-americano demonstra que para compreender o Fascismo, temos que examiná-lo em ação, levando em conta o que ele fez e não apenas o que dizia ser.

14 de set. de 2008

A "Invencível"


A Invencível Armada (no espanhol antigo: Grande y Felicíssima Armada), chamada de "The Invincible Fleet" com certo tom irônico pelos ingleses no século XVI, foi uma esquadra reunida pelo rei Filipe II da Espanha em 1588 na tentativa de pôr fim à sua guerra com a Inglaterra. Saindo de Lisboa a 28 de Maio de 1588, com 130 barcos, 8 mil marinheiros e 18 mil soldados (grande parte dos estrangeiros da Invencível Armada eram pilotos, marinheiros e soldados portugueses; inclusive um dos principais esquadrões de batalha era denominado "Esquadra Portugal"), a Armada tinha como plano destruir a frota inglesa que defendia o Canal da Mancha e posteriormente escoltar o exército do Duque de Parma de 30 mil soldados, que aguardava nos Países Baixos Espanhóis. Só após 15 dias os espanhóis conseguiram avistar a costa inimiga; durante este tempo, a calmaria no litoral português e uma tempestade junto ao cabo Finisterra, separou a Armada. Após uma reunião do alto comando em Vigo, decidiu-se rumar para a Inglaterra, avistando-se a frota britânica em 19 de Julho. Às duas da manhã da segunda-feira seguinte, preparava o Conselho de Guerra inglês seis urcas velhas — os "navios-fogo" — que foram abarrotadas de combustível, enviadas para o centro da esquadra espanhola e em seguida incendiadas, fugindo os pilotos em seus batéis. A esquadra espanhola perdia assim a coesão e via-se reduzida a menos da metade de seus navios, que somente conseguiriam escapar contornando as costas da Escócia e Irlanda, em uma atribulada viagem que ainda sofreu com as tempestades de setembro, típicas na região.

Recomendação do dia: O livro "Filipe da Espanha", de Henry Kamen, ed.Record, uma biografia erudita, imparcial e justa do mais controvertdo rei espanhol.

28 de ago. de 2008

O Baile


O ocaso do Império brasileiro não poderia estar melhor simbolizado do que pelo derradeiro baile da Ilha Fiscal(foto), realizado em 9 de novembro de 1889, apenas seis dias antes da proclamação da República. Reunindo entre quatro e cinco mil pessoas, a festa tinha como motivação homenagear oficiais da marinha chilena que haviam aportado pouco antes no Rio de Janeiro. Com tal gesto, o Estado imperial pretendia mostrar aos históricos rivais argentinos que uma nova composição de forças surgia no continente, barrando possíveis ambições expansionistas de seus vizinho dos pampas. No palácio de estilo gótico(hoje parte integrante do complexo Cultural da Marinha), foi servido aos convidados um requintado buffet de carnes e peixes variados, regados a excelentes vinhos e champagnes. Enquanto isso, no cais, o povo era distraído por uma banda da polícia com lundus e fandangos, danças que contrastavam com o refinamento das valsas e polcas que embalavam políticos e oficiais... O comportamento dos participantes foi largamente explorado (a imprensa da época noticiou que peças íntimas foram encontradas na ilha depois da festa), no evento que marcou a melancólica despedida da monarquia.

Recomendação do dia: O livro "A Formação das Almas - O Imaginário da República do Brasil", de José Murilo Carvalho, ed.Companhia das Letras, onde o autor - com os olhos no final do século XIX - nos oferece um curioso passeio pelo momento de implantação do regime republicano através de imagens. Entre texto e ilustrações, aprendemos como mitos criados para a República - seus heróis, a bandeira verde-amarela e o nosso hino - traduzem com fidelidade as batalhas travadas pela construção de um rosto para a República brasileira.

27 de jul. de 2008

Intelectuais


Teria sido o surgimento dos intelectuais um fenômeno ocorrido apenas no final do século XVII, como afirma Paul Johnson, quando pensadores seculares substituíram padres, escribas e adivinhos, os quais em épocas de maior religiosidade haviam conduzido a sociedade ou, segundo opinião de Jacques Le Goff, seria o intelectual fruto da revolução urbana situada nos séculos XII e XIII que permitirá a emergência das universidades, verdadeiras catedrais do saber, nas quais grandes debates forjam os músculos dos trabalhadores da idéias? Independente do momento em que aparecem, os intelectuais não serão encarados nem como servos nem como intérpretes dos deuses e sim como seus substitutos, capazes de diagnosticar as doenças da sociedade e de curá-las com seu intelecto auto-suficiente...

Recomendação do dia: O livro "Descartes - Uma biografia intelectual", de Stephen Graukoger, ed.Contraponto, que trata da vida e obra de René Descartes, cuja filosofia encontrou oposição na Igreja e nas universidades até o século XVIII. Excluído da Academia das Ciências, o cartesianismo cedo se transformou em filosofia social específica, que aplicou o método da dúvida e o princípio das idéias claras e distintas ao pensamento vigente, desmascarando a falsidade de preconceitos e a presunção de verdades definitivas.

O Pai da Imprensa


Em 1450, todos os livros europeus eram copiados a mão e não somavam mais do que algumas centenas. Em 1500, eles já eram impressos e podiam ser contados aos milhares. A história de Johannes Gutenberg é um paradoxo: sua ambição era reunir todo o mundo cristão, mas sua invenção foi utilizada para separá-lo; ele desejou fazer fortuna, mas lhe foi cruelmente negado o direito de aproveitar os frutos do seu trabalho e uma vez que o segredo de sua descoberta foi revelado, o mundo nunca mais foi o mesmo... A invenção dos tipos móveis tornou possível o desenvolvimento da ciência moderna e da literatura, além de promover profundas mudanças políticas que levaram ao surgimento das nações.

Recomendação do dia: O livro "A Conturbada História das Bibliotecas", de Matthew Battles, ed.Planeta, onde cada página mostra como o armazenamento de enormes quantidades de livros em um só local vem despertando a atenção de inimigos da civilização, desde a destruição da coleção de Alexandria até as guerras mais recentes. Após este livro, fica difícil caminhar entre estantes sem pensar na vida intensa que é ocultada por sua aparência de paz e ordem.