19 de ago. de 2007

A Escória do Reino


Degredados portugueses estiveram presentes no Brasil durante mais de três séculos, desde quando Cabral deixou os dois primeiros no litoral da Bahia, até a independência em 1822. Esses homens e mulheres que integraram a população brasileira, faziam parte dos estratos mais humildes da sociedade portuguesa, tendo sido condenados por tribunais civis ou pela Inquisição, por crimes que variavam desde roubo de trigo, até adultério, bigamia e homicídio. Na verdade, alguns grupos sociais como o dos ciganos e o dos cristãos-novos foram sistematicamente perseguidos e sentenciados com o degredo colonial; aqui no Brasil viviam em liberdade, porém eram responsáveis pela própria sobrevivência, ganhando a vida como soldados, agricultores, carpinteiros, padres, curandeiros, parteiras, ladrões, prostitutas etc. Poucos enriqueceram ou alcançaram alguma projeção social e a maioria continuou a viver exatamente da maneira como fazia na metrópole, gerando frequentes queixas das autoridades coloniais; uma parte, porém, retornou a Portugal após o cumprimento da pena ou pelo perdão real. A prática penal do degredo (adotada em todas as colônias portuguesas) promovia a "desinfestação" - termo utilizado em documentos oficiais - do reino, livrando-o de indivíduos indesejados, considerados agentes de desestabilização social.

(Na gravura vemos integrantes da expedição de Cabral na primeira observação astronômica em solo brasileiro. A reconstituição baseia-se em cartas enviadas ao rei D.Manoel)
Recomendação do dia: O DVD "Desmundo", que relata as desventuras de Oribela, uma órfã portuguesa de 13 anos trazida com outras meninas para se casar com colonos e assim garantir a pureza racial dos descendentes de portugueses no Brasil do século XVI.

13 de ago. de 2007

Anti-Semitismo


O anti-semitismo não foi uma invenção do Nazismo, embora tenha sido justamente na Alemanha, por volta de 1880, que apareça a palavra "Antisemitismus", encontrando rápida difusão. Os mais importantes dicionários da época definem o termo como movimento de opinião contrária aos judeus e, atualmente, registram anti-semitismo como doutrina ou atitude de hostilidade em relação aos judeus. Porém, a realidade do anti-semitismo precedeu historicamente o aparecimento do vocábulo. Na verdade, embora o aspecto especificamente racista do anti-semitismo tenha só aparecido na primeira metade do século XX e constituído-se em uma de suas últimas formas, a hostilidade contra os judeus, de ordem religiosa, é muito mais antiga. Resta, então, definir o objeto desse anti-semitismo, o judeu. "Judeu" é uma pessoa ligada a um povo ou a uma religião, porém nos dicionários sempre reaparece o preconceito - judeu é associado frequentemente à mesquinhez e avareza. Isso explica porque no século passado muitos franceses tenham preferido ser tratados de israelitas, o que tinha um ar mais conveniente e "assimilado", a serem chamados de judeus.

Recomendação do dia: o livro "O que deu errado no Oriente Médio?", de Bernard Lewis, Jorge Zahar Editor, onde esse especialista em estudos sobre o Oriente Médio procura decifrar e explicar a tensa relação entre o Islã e o Ocidente.

5 de ago. de 2007

Em Defesa dos Mortos


Salvador, 25 de outubro de 1836: uma multidão pluriclassista e multiracial destrói o cemitério do Campo Santo. Inaugurado três dias antes, ele havia sido construído por uma empresa que obtivera do governo o monopólio dos enterros da cidade. Até aquela data, as pessoas eram sepultadas nas igrejas, costume considerado essencial para a salvação das almas. A revolta contra o cemitério, denominada "Cemiterada", foi feita por centenas de manifestantes em defesa de uma vida melhor no outro mundo. Na luta, confrades de diversas agremiações religiosas brandiam estandartes e ostentavam hábitos coloridos, representando uma cultura funerária afeita ao espetáculo e refratária à medicalização da morte. Vinte anos depois do levante, a epidemia de cólera, trazendo em seu rastro a experiência cotidiana dos corpos putrefatos, provocava alterações que as leis e autoridades, impondo o cemitério, não tinham sido capazes de desencadear. A morte deixava de ser uma festa para se tornar uma ameaça terrível.

(Na aquarela, Jean-Baptiste Debret retrata um cortejo fúnebre no Brasil do início do século XIX)
Recomendação do dia: o livro "Vida no Brasil", de Thomas Ewbank, ed.usp, um fascinante registro da cidade do Rio de janeiro em 1845/46 na visão desse viajante norte-americano, cujo testemunho nos fornece um painel do passado, analisando costumes e hábitos do povo carioca no século XIX.

27 de jul. de 2007

Boemia Intelectual


Cafés e bares desempenharam papel de destaque na vida intelectual italiana, francesa e britânica a partir do século XVII, pois eram locais onde conversações livres e criativas propiciavam aprendizagens não reguladas, sendo importantes na promoção de um saber inovador. Os donos desses estabelecimentos frequentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão de notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de “opinião pública” ou “esfera pública". Essas instituições facilitavam encontros entre idéias e indivíduos. Palestras sobre Matemática eram oferecidas no "Dougla’s" e no "Marine Coffe-House" em Londres, enquanto o "Child’s" era frequentado por livreiros e escritores... Já em Paris destacava-se o "Procope", fundado em 1689 e que servia como ponto de encontro para Diderot e seus amigos às vésperas da Revolução Francesa.

(Na gravura vemos o famoso "Café de Paris", criado em 1822 e considerado, até seu desaparecimento em 1856, como o “Templo da Elegância”. Por ele passaram algumas das mais notáveis figuras da época (entre elas Alexandre Dumas) que degustavam uma das melhores cozinhas que Paris já havia conhecido. Não era contudo um reduto para os amantes da noite pois, em qualquer estação, fechava suas portas às 22:00 hs)
Recomendação do dia: o livro "O Povo de Paris", de Daniel Roche, ed.usp, obra que ilumina a vida cotidiana de um dos maiores personagens da História: o povo de Paris. Clássico da História Social, revela as maneiras de viver, as condições materiais e até as possibilidades de lazer da massa parisiense durante o agitado século XVIII.

22 de jul. de 2007

O Fim da Infância


Na sociedade pré-industrial a criança e o adolescente eram encarados de uma forma diferente da dos dias atuais. A duração da infância era reduzida; a criança logo que adquirisse algum desembaraço físico era misturada aos adultos e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena transformava-se imediatamente em homem ou mulher jovem, sem passar pelas etapas da juventude, o que é um aspecto essencial das sociedades evoluídas de hoje. A passagem da criança pela família era, portanto, muito breve e insignificante para que se tivesse tempo ou razão de forçar a memória ou a sensibilidade, como é demonstrado pela raridade das alusões às crianças e às suas mortes nos diários de famílias medievais. A partir do fim do século XVIII tudo muda; a escola substitui a aprendizagem como meio de educação e a criança deixa de aprender a vida diretamente, através do contato com adultos, sendo mantida em uma espécie de quarentena antes de ser solta no mundo. Começou então um longo processo de enclausuramento que se estenderia até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização...

(Em "A Família de Tito", quadro pintado em 1668 pelo holandês Rembrandt, podemos observar crianças vestidas como adultos)
Recomendação do dia: O livro "O Mito da Idade Média", de Regine Pernoud, ed.Europa-América, onde a historiadora francesa desafia a opinião generalizada de que o período medieval teria sido uma época de trevas, encaixada entre os séculos gloriosos da Antiguidade e do Renascimento.

13 de jul. de 2007

Tribos Pagãs


Cinco milênios atrás, antes mesmo que os egípcios construíssem suas pirâmides, um povo misterioso criava monumentos no mundo antigo. Eram as tribos pagãs da velha Inglaterra que, durante trinta séculos até a chegada dos romanos, foram os responsáveis pelo erguimento de impressionantes santuários e tumbas coletivas. Apesar de atrasados tecnologicamente, descobriram meios de transportar enormes blocos de pedra por centenas de quilômetros e ainda inventaram uma técnica para registrar a passagem das estações do ano. As tribos pagãs viviam sem a escrita, portanto poucas pistas temos de como conseguiam erguer tantas estruturas, porém 50 séculos não apagaram as provas evidentes e até hoje visíveis do que realizaram...

(Na foto, Stonehenge, o mais famoso monumento pagão do mundo. Localizado no sul da Inglaterra, seu propósito vem intrigando gerações de pesquisadores, porém como parece claro que a tentativa de comunicação com os mortos era parte essencial da vida pagã, é quase certo que o conjunto de monólitos que formam Stonehenge tinha um importante papel em rituais fúnebres, sendo encarado como um portal para o mundo dos espíritos)
Recomendação do dia: O livro "A História do Alfabeto", de John Man, Ediouro - A idéia por trás do alfabeto (que a linguagem com toda sua riqueza de sentidos pode ser registrada por uns poucos símbolos gráficos) é extraordinária. Do surgimento do alfabeto ocidental até sua presente evolução, o livro nos mostra a contribuição vital de 26 letras para o nosso senso de identidade.

8 de jul. de 2007

Pela Glória do Império


"O inglês nasce com um certo poder milagroso que o torna senhor do mundo. Quando deseja alguma coisa, ele nunca diz a si próprio que a deseja. Espera pacientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável convicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa que ele deseja possuir..." Assim referia-se o dramaturgo inglês Bernard Shaw sobre os métodos de conquista empregados pelos ingleses durante o Neocolonialismo. A partir da metade do século XIX, na ânsia pela descoberta de novas fontes de matérias primas e de novos mercados consumidores, os europeus partem para a conquista de áreas desconhecidas. Desta forma, as marginalizadas África e Ásia foram os alvos preferenciais do Imperialismo e de disputas territoriais, prenúncios de tormentos somente compreendidos diante dos horrores da Primeira Guerra Mundial.

Recomendação do dia: o livro "O Fantasma do Rei Leopoldo", de Adam Hoschild, Ed.Companhia das Letras, que nos mostra a pilhagem genocida exercida pelo rei da Bélgica Leopoldo II ao longo do vasto e inexplorado território que circundava o rio Congo, relatando detalhes macabros, tais como casas e jardins de orgulhosos oficiais belgas decorados com crânios humanos. Tais crimes geraram o primeiro grande movimento por direitos humanos do século XX.

30 de jun. de 2007

Médicos e Curandeiros


Médicos, no Brasil do século XIX, eram artigos raros e caros. Mais do que isso, eram motivo de chacota em desfiles de carnaval e piadas de jornais; suas prescrições causavam verdadeiro pânico entre os mais variados pacientes: homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos. Para lutar contra as dificuldades que enfrentavam, travaram verdadeira guerra contra autoridades das províncias e da corte e, principalmente, contra a imensa variedade de concorrentes nos exercícios das artes de curar, como curandeiros, médiuns, barbeiros, boticários, benzedeiros, homeopatas, parteiras e até supostos "doutores" estrangeiros...

(A caricatura acima retrata cenas da "Revolta da Vacina", ocorrida durante o governo Rodrigues Alves a partir da aprovação no dia 31 de outubro de 1903 da lei da vacinação obrigatória. Preparado pelo médico Oswaldo Cruz - que tinha pouquíssima sensibilidade política - o projeto de regulamentação sai cheio de medidas autoritárias. O texto vaza para um jornal e no dia seguinte à sua publicação, começam as agitações no centro da cidade. Financiados pelos monarquistas — que apostavam na desordem como um meio de voltar à cena política — jacobinos e florianistas usam os jornais para passar à população suas idéias conspiradoras, por artigos e charges; no dia 16 de novembro, o governo revoga a obrigatoriedade da vacina, mas continuam os conflitos isolados, nos bairros da Gamboa e da Saúde. Dia 20, a rebelião está esmagada e a tentativa de golpe, frustrada. Começa na cidade a operação “limpeza”, com cerca de 1000 detidos e 460 deportados).
Recomendação do dia: o livro "Cidade Febril - Cortiços e Epidemias na Corte Imperial", de Sidney Chalhoub, Ed.Companhia das Letras - Escrito de forma apaixonante e bem-humorada, o livro reinterpreta conflitos de poder no Rio de Janeiro do século XIX à luz da história social.

25 de jun. de 2007

Sexo, Desvio e Danação


Durante séculos, os historiadores têm estudado a guerra e o dinheiro, as leis e a religião, porém só recentemente eles se voltaram para o estudo em profundidade do instinto primitivo da humanidade: a ânsia de se reproduzir e desse modo perpetuar a espécie através do sexo. O tabu intelectual atesta desse modo o poderoso legado do pensamento e dos ensinamentos cristãos na civilização ocidental. No século XIX, passagens que lidassem com questões sexuais em textos antigos eram deixadas na"obscuridade decente de uma linguagem clássica". A cristandade foi, desde seus primórdios, uma religião negativa quanto ao sexo e os pensadores cristãos o encaravam na melhor das hipóteses como um mal necessário, lamentavelmente indispensável para a reprodução humana, mas que perturbava a verdadeira vocação de uma pessoa: a busca da perfeição espiritual.

(Na gravura, uma casa de banhos para prostitutas no século XVI. Parte integrante da vida urbana desde a Idade Média, as prostitutas eram segregadas pela Igreja e pelo Estado, que adotava uma postura semelhante à utilizada em relação a leprosos, ou seja, elas seriam diferenciadas do restante da população pela prescrição de uma marca de infâmia, geralmente com códigos de vestimenta distintivos e atuando em zonas da "luz vermelha").
Recomendação do dia: o livro "A Invenção da Pornografia", org.Lynn Hunt, Ed.Hedra - Obra que relaciona o surgimento da obcenidade com os momentos de formação da modernidade e democratização da cultura do Ocidente...Sim, a pornografia tem sua história e, entre heréticos, livre-pensadores e libertinos, autores como Sade colocaram à prova o "decente", questionando os relacionamentos sexuais e sobretudo sociais.

23 de jun. de 2007

Exercícios Espirituais


A experiência de catequese das missões jesuíticas, com a visão inicial de inocência dos indígenas e do correspondente otimismo quanto à facilidade de lhes inculcar o credo, chegou até a convicção de que, diante da resistência do nativo em abandonar seus "vícios"(poligamia, nudez, canibalismo etc), a via mais eficiente para legitimar a autoridade dos colonizadores seria o consentimento gerado pelo medo. Como explicou sutilmente São Tomás de Aquino (lição bem compreendida e aplicada por Nóbrega e Anchieta no Brasil), o medo não se confunde com coerção, pois esta comprometeria a conversão, que não pode ser forçada, já que depende de graça divina. Chegou-se assim à conclusão de que para tornar os índios mais propensos a adotar a fé cristã cumpria pô-los diante de um dilema:subordinar-se "voluntariamente" à ordem colonial agrupando-os em aldeias tuteladas pelos padres, ou encarar a perspectiva de serem caçados e escravizados pelos colonos. Nos dois casos teriam de renunciar à própria identidade cultural.

(Na foto, ruínas na região de Sete Povos das Missões, uma das principais comunidades jesuíticas do sul do país e que foi destruída em meados do século XVIII pelas forças espanholas e portuguesas)
Recomendação do dia: O DVD "A Missão", que relata o conflito de interesses entre os colonizadores em busca do enriquecimento em contraponto com o papel dos jesuítas que queriam as reduções longe dos centros povoados, onde eles mesmos teriam o controle espiritual e temporal.

17 de jun. de 2007

Quando o mundo encolheu


Foi há mais de 600 anos, no século XIV, que uma doença varreu o mundo numa apavorante pandemia conhecida como "Peste Negra". Todas as nossas imagens da peste são coloridas pelas recordações de medo e morte deixadas pelos sobreviventes europeus daquele horror global. Uma doença que nunca tinham visto antes apareceu do nada; quase metade da população da Europa foi infectada e cerca de um terço morreu de forma rápida e horrível. Somente 500 anos depois é que a descoberta dos germes permitiria explicar tamanho horror. Sabe-se que a peste (transmitida por pulgas) pode infectar duas centenas de animais diferentes e que, antes de atingir os seres humanos, ela vivia entre os ratos e viajava pela superfície do planeta. Tivemos notícia da peste somente quando os destinos de homens e roedores se cruzaram...

(A gravura mostra a remoção de corpos de pessoas atingidas pela peste na cidade italiana de Florença, por volta de 1340)
Recomendação do dia: O livro "Gripe", de Gina Kolata, Ed.Record - Nessa obra a jornalista norte-americana desvela o mistério dessa outra doença letal ao acompanhar o trabalho de cientistas que descobrem fragmentos do vírus em corpos congelados de pessoas contaminadas em 1917 no Alaska. A autora esmiuça a história da gripe, relata a corrida para resgatar traços do vírus em boas condições para pesquisas e sonda o medo que impeliu as políticas governamentais nos EUA e na Europa.

16 de jun. de 2007

Hanna e a História


Existem autores que periodicamente voltam a ficar na moda; um deles é a filósofa alemã Hanna Arendt. Bela e inteligente, tudo tinha para agradar(aliás agradou a Heidegger, de quem foi nos anos 20 estudante e amante). Depois, a partir de 1933, a tempestade desabou sobre a Europa; enquanto seu guia tornava-se um reitor simpático ao Nazismo na Universidade de Freibourg, a jovem pensadora judia, que apenas tinha tido tempo de publicar sua tese sobre "Conceito de Amor em Santo Agostinho", buscava o rumo do exílio, passando pela França(onde participa no trabalho de uma organização que facilitava a emigração de judeus para a Palestina), pela Espanha e finalmente instalando-se nos EUA em 1941. Terminada a guerra, a escritora decide passar o resto de sua vida na América, onde publica diversos trabalhos nos quais transmite a idéia de que a História pode ser trágica e que dela retiram-se lições.

(Na foto, três fases distintas da vida de Arendt, nos anos 20, 40 e 60)
Recomendação do dia: O livro "Nos Passos de Hanna Arendt", de Laure Adler, Ed.Record - Essa biografia tenta enfim compreender a mulher generosa, politicamente incorreta, de uma coragem excepcional, que praticava o culto da amizade como um eros e a filosofia como uma arte do "savoir-vivre".

17 de abr. de 2007

Guerra Civil no Brasil


Milhares de soldados e voluntários civis participaram da rebelião formada no estado de São Paulo contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas, lutando em busca de liberdade, democracia e uma nova constituição para o país. O poder político de São Paulo diminuiu após a Revolução de 1930 e o descontentamento motivou a população para o Movimento Constitucionalista com o propósito de restaurar a influência dos paulistas, que tiveram o estado entregue a um interventor “tenentista” de idéias totalitárias. A conspiração, organizada por representantes de partidos políticos, oficiais do exército e comandantes da Força Pública, não foi restrita somente a São Paulo, repercutindo também com protestos e manifestações em outros estados. No total, foram 87 dias de combates, (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 - sendo o último dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos. Após o movimento, São Paulo voltou a ser governado por paulistas, e, dois anos depois, uma nova constituição foi promulgada.

Recomendação do dia: O livro "Elite Intelectual e Debate Político nos Anos 30", 143 livros de época levantados e resenhados pela equipe do Projeto Brasiliana do Cpdoc, com introdução de Lúcia Lippi Oliveira e prefácio de Barbosa Lima Sobrinho.

5 de dez. de 2006

O que 68 tem a nos ensinar?


Há 38 anos o mundo tremeu. O ano de 1968 na França, na Tchecoslováquia e no resto do mundo permanece uma incógnita. Os acontecimentos não foram previstos nem mesmo pelos que vieram a liderá-los e, uma vez em marcha, escaparam a todos os modelos, não sendo explicados até hoje por nenhum analista. Na inquietude daqueles dias, verificava-se uma completa desmoralização de todas as ortodoxias. Não foi por acaso que os fatos ocorridos durante o mês de maio de 1968, na França, tiveram inúmeras denominações, desde "acontecimentos de maio de 68", a "as barricadas de 68" ou, numa formulação mais abrangente, simplesmente "maio de 68". Na verdade, a insubordinação estudantil, seguida da operária, levou à uma crise de autoridade na França, propagada pela imprensa, pelo rádio e pela televisão, que transmitiam ao mundo palavras, som e imagens de rebeldia.

(Durante as manifestações parisienses uma série de posters foram produzidos e utilizados como verdadeiras armas de contestação e rebeldia, sendo colocados em paredes e muros localizados no centro dos conflitos, seja nas ruas, nas universidades ou nas fábricas. O desenho acima retrata talvez o mais famoso deles; mostra uma pessoa com a cabeça coberta de bandagens. Não podemos distinguir sua raça, idade ou sexo, mas temos certeza de que essa pessoa foi brutalizada. Seus olhos exprimem dor e angústia, sua boca está fechada com um alfinete. Na legenda está escrito:"Uma juventude que se inquieta demais com o futuro..." O que essa imagem nos diz? É meramente o desenho de alguém que sofreu um abuso das autoridades ou profetiza uma fuga do coletivo dentro da apatia e da covardia? Seja qual for a interpretação, essa imagem continua a ressoar em nossos tempos...)
Recomendação do dia: O livro "Era dos Extremos", de Eric Hobsbawm, Ed.Companhia das Letras - O testemunho do autor sobre o século XX, em um estilo agradável e elegante, discorrendo sobre temas tão distintos como máfia, jazz, rebeldes africanos, política ou economia.

1 de dez. de 2006

Meu Pai


Nunca havia visto meu pai chorar. Por isso doeu tanto aquele momento no qual lhe disse ter trancado o curso de Engenharia Mecânica na Universidade Gama Filho para tentar o vestibular de História no ano seguinte. Trabalhando na Petrobrás desde 1960, tendo começado como um simples operador e chegado à aposentadoria como supervisor, cargo máximo que se pode atingir com o nível de escolaridade que possuía, papai desejava ver seu filho mais velho formado engenheiro, a fim de que pudesse alcançar na empresa um status que ele nunca pôde obter. Eu, porém, tinha outros planos.

(A gravura acima encontra-se no site da enciclopédia virtual L'agora, um precioso instrumento de pesquisa para quem domina o idioma francês).
Recomendação do dia: O livro "Quase Memória, Quase Romance", de Carlos Heitor Cony, Ed. Companhia das Letras - Uma obra-prima. O autor alterna em grande estilo momentos de ternura e humor ao narrar episódios de sua vida ao lado do pai.

24 de nov. de 2006

Irlanda


Há lugares que um historiador precisa visitar e, se a mim coubesse uma escolha, em primeiro lugar eu iria à Irlanda, pois gostaria de conhecer a terra e as pessoas cujos antepassados salvaram a Civilização Ocidental. Explico: no período entre a queda de Roma e a ascensão de Carlos Magno - etapa conhecida como "Idade das Trevas" - o aprendizado, a erudição e a cultura praticamente desapareceram do continente europeu. A grande herança da Civilização Ocidental - desde os clássicos gregos e romanos até textos bíblicos de judeus e cristãos - teria sido inteiramente perdida não fosse pelos monges da Irlanda, uma região que permaneceu ilesa aos ataques das hordas bárbaras. Com a volta da estabilidade à Europa, os estudiosos irlandeses foram instrumentais na disseminação deste conhecimento. Eis a razão pela qual gostaria de conhecer esse povo, que não apenas preservou a civilização, mas também se tornou formador da mentalidade medieval, colocando sua marca singular na cultura ocidental.

(A foto mostra as ruínas de um mosteiro franciscano fundado em 1357 na localidade de Headford, Irlanda. Em locais como esse, longe dos saques ocorridos no continente, monges e escrivães, com amor e desprendimento, copiaram e preservaram laboriosamente os tesouros manuscritos do Ocidente)
Recomendação do dia: O livro "Quando Jesus se tornou Deus", de Richard E. Rubenstein, Fisus Editora - São poucos os cristãos desse século que sabem da intensa disputa religiosa, social e política que marcou 60 anos do século IV. O autor explica os elementos da luta teológica que se refletiu em uma monumental mudança histórica: o cristianismo, que de uma seita perseguida, tornou-se a religião oficial do Império Romano.

22 de out. de 2006

A Guerra do Paraguai (uma história mal contada)


A Guerra do Paraguai teve desde seu término inúmeras interpretações dos que a estudaram. A primeira delas, surgida quando ainda viviam os que lutaram no conflito, simplificava a explicação da guerra ao ater-se às características pessoais de Solano López, classificado como ambicioso, tirânico e desequilibrado. Já no início do século XX, adeptos do positivismo, filosofia contrária ao regime monárquico de governo, passaram a responsabilizar o Império brasileiro pelo início da guerra; também nessa época, no Paraguai, Solano López teve sua imagem "reconstruída", passando a ser apresentado como grande estadista e chefe militar. Nas décadas 1960 / 1970, intelectuais nacionalistas e de esquerda "promoveram" Solano López a líder anti-imperialista e apresentaram o Paraguai como uma nação progressista que fugia à subordinação da Inglaterra - entre os livros mais marcantes desse revisionismo podemos citar "Genocídio americano:a Guerra do Paraguai", de J.J.Chiavennato, grande sucesso editorial e que ensinou a gerações de estudantes brasileiros (aí me incluo)que o imperialismo inglês usou a guerra para destruir o Paraguai, "único Estado economicamente livre" da América do Sul. Essa teoria conspiratória não tem provas documentais; na verdade tanto a historiografia conservadora quanto a revisionista simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ignorando documentos e substituindo a metodologia do trabalho histórico pelo emocionalismo fácil e denúncia indignada. Atualmente a superação dos regimes autoritários sul-americanos, os avanços do conhecimento histórico e a abertura de arquivos criaram condições para uma análise mais objetiva do conflito, superando deturpações ou simplificações.

(A gravura mostra a batalha do Avaí, uma dos combates da dezembrada - conjunto de operações militares ocorridas em dezembro de 1868, que também inclui o combate da Ponte de Itororó, planejadas e comandadas pelo então Marquês de Caxias, abrindo acesso a Assunção)
Recomendação do dia: O livro "Maldita Guerra", de Francisco Doratioto, Editora Companhia Das Letras - Escrito em linguagem clara e direta, este livro é fruto de quinze anos de pesquisa em arquivos e bibliotecas do Brasil, do Rio da Prata e da Europa, desfazendo mitos antigos e recentes sobre o conflito.

18 de set. de 2006

Uma Certeza


- "Você ama História?" A pergunta me foi atirada pela professora de supetão e, apesar de surpreso, também sem pensar respondi de imediato:"Amo!". Longe de querer fazer filosofia barata, posso afirmar que aquela questão merecia uma análise melhor da minha parte antes de uma resposta tão descuidada, afinal "amo" é uma palavra que não pode ser dita em vão...Porém hoje, passados tantos anos, reafirmo: "Sim, eu amo História..."

("The State Hermitage Museum", localizado no coração da cidade de São Petersburgo na Rússia, antiga residência de czares, apresenta hoje uma magnífica coleção de trabalhos artísticos - mais de 3.000.000 de ítens - da idade da Pedra ao século XX. Vale a pena dar uma olhada no site do museu, que apresenta uma espetacular visita virtual)
Recomendação do dia: O livro "História das Idéias Políticas", de François Chatelet, Jorge Zahar Editor - Não tendo como objetivo delimitar o saber, apoia-se na idéia da "compreensão": compreender as principais doutrinas que marcaram o desenvolvimento do pensamento político, de Platão a Marx, de Aristóteles a Foucault.

10 de jun. de 2006

"Se lembra quando era só brincadeira, fingir ser soldado a tarde inteira..."


Um dos episódios mais obscuros acerca de nossa participação na Itália durante a Segunda Guerra Mundial é o que se refere à condenação à morte de membros de um pelotão da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que, segundo documentação oficial, haveriam matado um velho italiano e estuprado sua neta em fins de 1944. Em que pese os nomes dos envolvidos terem aparecido no jornal "O Globo" (6/10/1945), no semanário "O Cruzeiro" e nos volumes 22 e 27 da Jurisprudência do Supremo Tribunal Militar, o assunto foi abafado ainda durante o primeiro governo do presidente Getúlio Vargas, que indultou a todos. Posteriormente um dos envolvidos no bárbaro crime chegou a fazer parte da guarda de Vargas no Palácio das Águias, no Catete, após a posse do ex-ditador em seu retorno ao poder no ano de 1950.

(Na foto acima, soldados brasileiros escoltam prisioneiros alemães capturados em Monte Castelo. É interessante constatar que quase todas as fotos dos pracinhas foram posadas, não havendo praticamente registros de combates. Isso ocorreu porque os jornalistas brasileiros encarregados de cobrir a FEB dificilmente íam à linha de frente, pois a censura era realizada de forma descabida, tolhendo a ação dos repórteres, algo que pode ser confirmado pelo fato de que nenhum dos nossos correspondentes foi sequer ferido, o que é raro neste tipo de atividade).
Recomendação do dia: O livro "As Duas Faces da Glória", de William Waack, Ed.Nova Fronteira - Uma crítica histórica bem documentada das versões existentes sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

4 de mai. de 2006

Piratas


A era de glória da pirataria estende-se de 1660 até 1730, devido à comercialização de mercadoria via marítima entre vários locais (desde as riquezas do Novo Mundo, que eram transportadas em caravelas comandadas por portugueses ou espanhóis das Américas à Península Ibérica, até à mercadorias transportadas pelo mar do Caribe). Alguns piratas ficaram com o seu nome na história, tal como Edward Teach, mais conhecido por Barba Negra. Mas, a pirataria não era só um problema europeu e americano: as embarcações de Xangai até Singapura, do Vietnã ao Japão e à China, e até as embarcações não muçulmanas da costa norte de África estavam entre os alvos.

(O desenho mostra uma abordagem à fragata "Whydah", que opõe resistência).
Recomendação do dia: O livro "Além do Fim do Mundo", Ed.Objetiva, onde L.Bergreen conta com riqueza de detalhes e inúmeras revelações, a verdadeira história da odisséia de Fernão de Magalhães em sua viagem de circunavegação de 1519, pontuada por tormentas, motins, violência, luxúria e que nos lembra do que é preciso para ousar ir onde nenhum ser humano foi antes.